não sei o que me deu, mas não tinha a mínima ideia de que seria aprovada nesta prova.
escolhi o Acre sem nunca ter ido nem sonhado em conhecer.
saio da montanha de Santo Antônio do Alto Rio Grande, do frio e do silêncio. passo por Penedo para me despedir da família mais próxima e de lá sigo com o Leo para São Paulo, onde passamos os últimos dias nos despedindo.
e eis que em 16 de outubro saio da Santa Cecília de madrugada, pego as malas na Liberdade e já com aquela dor de cabeça do cansaço acumulado sou levada pra Guarulhos pelo Leo querido amigo amado, estilista da montanha. só sei que despachar mala em tempos de autoatendimento é simplesmente guerra, você que lute para conseguir chegar no portão no tempo certo, ainda mais estressada ao realizar a maior mudança da sua vida.
4 horas depois chego naquele pequeno aeroporto abafado de rio branco e encontro um uber para ir até a rodoviária, compartilhado, como todo o transporte daqui. cada vez mais exausta percebo como fui irresponsável de dormir mal logo nos 3 dias que antecedem enfrentar tudo isso, mas queria muito encontrar aquele cara interessante e era a única chance, a única chance em tanto tempo a perder de vista... o fato é que, já faminta, na rodoviária fico parada com as malas, das quais preciso cuidar enquanto como castanhas. peço a alguém pra olhar a bagagem enquanto corro até a lanchonete e não encontro nada que me apeteça. uma fresca natureba que evitava frituras e ultraprocessados que aos poucos percebe que a vida vai mudar.
um mês depois já virei carnívora mesmo, sinto vontade de carne até de noite, até porque a carne do Acre é a melhor do país. mas voltando ao assunto, da rodoviária entro no carro com 4 homens e me colocam no meio, apertada entre dois sujeitos que me fazem sentir constrangida. cubro a barriga com a jaqueta e me embolo na echarpe tentando me proteger do jato de ar condicionado que me acerta. o que passa na minha cabeça é como eu me desafio a vivenciar certas situações nas quais a maioria das pessoas não ousaria se aproximar. estou num carro indo para fins do Brasil, sem ter a mínima ideia de como será e sem conhecer ninguém. e aí o carro quebra, ou fica sem gasolina. resolvo comprar uma panqueca de carne numa birosca qualquer, onde peço para ir ao banheiro e fico bem chocada com a situação precária. foi difícil mas encaro a panqueca depois do banheiro, compro um litro de garapa e tento convencer meus colegas de veículo a tomarem comigo, um deles aceita e o carro torna a funcionar. fico carregando aquela garrafa melada de caldo de cana enquanto tento controlar a jaqueta e a echarpe.
chegamos afinal e saio do gelo do carro para algo que parece uma sauna, a pousada - que por sorte tem piscina e mangueiras - onde me instalo na pequena suíte com varanda. me estranha o fato dos pedaços de plástico e restos de lixo por todo o canto, no quintal, na unidade onde trabalho, na rua. lixo é coisa fácil de ser encontrada, o que você esperava da região amazônica? encontro gado, lixo e estradas sem radar onde geral trafega em alta velocidade, e de forma razoavelmente segura.
essa minha cidade na verdade são 3 conurbadas, epitaciolandia, brasileia e cobija, as pessoas andam de mototaxi e não tem transporte público, mas muita gente pedala. no primeiro sábado fui ver uns apartamentos horríveis e fedorentos destinados a estudantes, que não merecem mesmo nada de bom, aparenetemente. percebi que minha casa vai ser a pousada mesmo. depois de visitar os tais imóveis, atravessei a pé pra cobija e pela primeira vez em solo boliviano arrisquei um portunhol pro guarda da fronteira: puedo pasar? e ele: pasa, pasa! andei pesarosa até uma praça bonita e deserta, era véspera da eleição nacional. essa parte bem pertinho atrai brasileiros com suas lojas de quinquilharias de toda a américa do sul. comprei cerejas e pepinillos do chile, além de ostras enlatadas e fiquei contente.
subi a rua até o mercado local rodeado de peluquerias e que me lembra a india: povos tradicionais com sua rica cultura contrastam com o esgoto correndo na lateral da rua. ali encontrei ají dulce, ou pimenta de cheiro, coisa que amava no ceará. o alto acre foi todo colonizado por soldados da borracha e a cultura nordestina fundou este lugar, muito diferente de outras regiões amazônicas. aos poucos vou perceber o quanto de nordeste tá presente aqui, nos hábitos culinários e nos modos de ser e existir. (como o nordeste é o melhor do brasil em 3 meses já me sinto adaptada e não tenho pressa em me mudar do acre, acho o sudeste muito longe e me arrependo de ter comprado uma passagem pra passear por lá.)
ainda confusa sobre o que de fato necessiro, comprei um guarda-chuva roxo (que quase nunca usei) numa loja e a criança mega simpática me fez sentir animada só pelo fato de que a entendia o meu espanhol e achava graça. em seguida um gesto arriscado (que só percebi depois que tive diarreia) foi pedir que um mototaxi me levasse até Las Palmas, restaurante indicado pelo TripAdvisor e único que tive coragem de provar, já que todos os colegas me disseram para não comer na Bolivia (na verdade bolivia aqui é sinônimo de cobija, já cochabamba tem comidas incriveis e é a capital das flores e da gastornomia boliviana). pedi uma paceña, que é a cerveja local, e gostei do sabor. tive que pedir uma garrafa grande, a única que havia. e logo o dono do restaurante me pediu para deixar em cima da cadeira porque era véspera de eleição e proibia-se a venda de bebida, mas alguém se esqueceu de me avisar e agora eu já estava ali bebendo.
no fim era bem ruim esse Las Palmas também, comparado com a comida acreana e seu tempero nordestino maravilhoso. um arroz cheio de petit-pois e pedacinhos de presunto impossíveis de catar, um frango engordurado e uma batata frita similar. só vi vantagem nos molhinhos que acompanhavam o frango: vinagrete de cebola roxa, chimichurri e molho vermelho de pimenta. pedi uma maionese pra comer com a batata, adoro e sempre me lembra de pulp fiction. precavida com a suposta falta de higiene boliviana, conferi a data de validade, que era 2021 e então não pude consumí-la. depois de pagar a conta avisei pra garçonete sobre a maionese e ela me disse que era só o recipiente velho. então tá, tudo certo, né?
as manguitas do quintal são uma delícia, com o calor perco a fome e só como manga. e mais, com o calor eu passo fome mas não quero comer, é confuso e não sei como agir. talvez a falta de fome tenha a ver com a minha própria dificuldade em encontrar o meu lugar, o meu conforto.