estou aqui há 3 meses e as moças do ICMBio me chamaram pra sair e me incluiram no grupinho delas. fiquei animada com aquela sensação de pessoas da mesma tribo se encontrando.
ET nesse tempo e espaço, percebo que a minha configuração estética se parece mais com as pessoas do filme norueguês Valor sentimental do que com meus co-habitantes de Epitaciolândia, fisicamente tão próximos.
procuro me manter flexível e aberta para o novo, mas há coisas que me incomodam e não se movem, como uma sensação atrasada de valores morais, machistas e preconceituosos, que permeia a sociedade local.
talvez eu sempre tenha sido esquisita, mas aqui o adjetivo me persegue desde o que e como me alimento até como me locomovo e como penso politicamente. isso implica estar sempre neste lugar deslocado de forasteira, excêntrica e chocante. aos poucos percebo que isso cansa, desgasta não estar no seu lugar e sentir não ser compreendida o tempo todo.
enquanto isso vou me preparando para me tornar uma espécie de policial ambiental. me pergunto se estou batendo bem, que sentido tem nisso tudo, mas encontro algum. é preciso barrar a destruição da floresta, e se é esse o caminho, que seja, então, trilhado.
neste começo de curso ead pego chuva, vem uma gripe intensa e até tento cancelar o voo pro sudeste. já não dá. a viagem é tão cansativa que prenuncia os anos vindouros, entendo que é preciso tempo para descansar e é preciso menos deslocamentos, é preciso estar mais tempo no mesmo lugar e construir rotinas. quando volto pro acre retomo a vida na casa suíte-varanda e encontro alívio e prazer na rotina.
ainda que sempre tenha sido uma jovem-senhora, aos poucos me torno uma senhora-senhora. prefiro dormir cedo e acordar cedo com vigor, praticar yoga e sair com energia e alegria para o dia. como se isso valesse mais do que qualquer date, e já não bebo nem o pouco a que antes me dispunha.
o resumo é que foi até bom o sudeste mas é puxado demais: são paulo, penedo, santo antonio, penedo, são paulo. cancelo a ida ao rio e o encontro com tantas pessoas queridas. é assim a vida da trabalhadora aos 42. não reclamo pois vivi até aqui sem esse compromisso, mas também sem o salário.
quando volto pro acre já me sinto em casa no meu quarto-chalé, tiro a airfryer da caixa e pela primeira vez compro uma lasanha congelada, cheia de algo que forja ser um queijo e com muita noz moscada. esquento e me sinto feliz de ter a chance de comer uma comida congelada e comprar qualquer coisa que eu queira com o meu salário.
aos poucos vou entendendo o que significa ganhar melhor do que antes, significa o acesso a coisas sem ter que me preocupar com quanto será a conta. em rio branco descobri um mercado muito bom que inclusive serve refeições. lá eu compro coalhada seca, pão ciabatta, biscoito de canela importado, queijo meia cura e outras regalias mais.
comprei vários cappuccino e já me doeu o ouvido, voltei a tomar cevada. apesar de adaptada neste quarto estilo acampada tem horas que cansa a falta de espaço, a cabeça tem que sempre planejar os movimentos. se vou cozinhar preciso pegar cada coisa na geladeira, usar uma bandeja e fazer caber tudo na pequena mesa da varanda. em alguns momentos levantar para lavar a mão que é coisa que se faz o tempo todo numa cozinha comum, você suja a mão de sal, de tomate, de azeite...
as coisas podem parecer difíceis mas sempre tem o lado bom. estar sozinha comigo mesma é também ter a oportunidade de fazer apenas o que eu quero, de não estar submetida às obrigações sociais, familiares ou pressões dos amigos. às vezes eu me sinto a pessoa mais antissocial do mundo por ver essas vantagens em estar isolada. percebo que tem uma coisa curiosa, que eu sempre me coloquei disponível para o que os outros desejavam fazer ou para o que parecia fazer sentido dedicar o meu tempo, mas aqui não tem isso. o meu tempo livre é dedicado apenas ao que me apatece e também ao que sou obrigada, como lavar louça, lavar calcinhas, varrer o quarto, passar pano com álcool na mesa que chamo de cozinha, enfim. fazer uma comida no domingo, guardar em potes de inox que trouxemos da Índia e que por sorte ficaram como herança minha.