quinta-feira, 22 de janeiro de 2026

diário II

pressinto os desafios de uma sudestina natureba para se alimentar em um contexto completamente distinto e ainda mais inóspito, pros seus termos. desde o início pude perceber que ou cozinho diariamente ou como carne, gordura e frituras em quantidades bem maiores e frequentes do que estava acostumada.

uma pergunta que me surge é: como as pessoas estão bem de saúde consumindo frituras diariamente? o pollo é refeição frequente, do lado de lá e de cá da fronteira, pollo significa frango frito, literalmente. dolado brasileiro o tempero é maravilhoso, sempre com coentro e pimenta de cheiro, mas também com muita gordura. na primeira semana tenho diarréia por vários dias e preciso almoçar pão com pepino.
a chegada nesse novo mundo me fez habitar uma suíte na Pousada Laurian, cujas mangueiras e frutíferas contrastavam, na minha perspectiva, com a falta de organização na gestão de resíduos, tinha lixo pelo quintal e na lixeira misturava-se tudo, além de um alto consumo de isopor e plástico, em forma de sacolas, marmitas e potes de comida de uso único.
no trabalho, tem sido difícil construir uma relação com meus colegas e deixar de lado muita coisa que me incomodava nas práticas da unidade, uma delas era o lixo, todo misturado, não havia nem lixo orgânico e a falta de política de resíduos somada ao uso excessivo de embalagens plásticas e de isopor me causava profundo incômodo, foi o que mais me desafiou nessa chegada. a cada almoço, um monte de marmitas de isopor e o lixo já estava lotado novamente, de plástico, isopor e restos de comida. 
acordo cedo no começo com facilidade para ir trabalhar, caminho pela
BR 317, a do Pacífico, sem calçada, pela lama lateral, porque se eu tentar não sujar meu pé fico realmente muito na beira da estrada e se vem uma carreta pode me atropelar, então o jeito é enfrentar a lama que quando chove é bem melecada, mas quando tá sol fica mais firminha e nem gruda no sapato. isso foi rolando por um mês e meio, até a chegada da bicicleta que demorou bastante até aqui. com ela eu passei a pedalar pela rodovia, chegava mais rápido e me protegia da lama nos sapatos. e continuo nessa, só me dá preguiça de ir pra bolívia porque é perto mas é longe.

adentrando o mundo acriano na fronteira de perfil reacionário e agrotech, me torno dona lila, o que no começo me incomoda porque parece uma indicação da velhice nos cabelos grisalhos, mas no fim é isso mesmo. talvez me falte entender que virei uma senhora, ainda que eu considere esse tratamento a expressão de uma visão ultrapassada da vida, tanto de hierarquias sem sentido quanto de um padrão estético muito pouco consciente das conquistas feministas e progressistas vigentes no sudeste.


Jeovani toma 5 banhos por dia ou mais, um de manhã antes do trabalho, um em casa antes do almoço e outro antes de voltar para o trabalho, ou seja dois banhos em menos de duas horas. toma outro quando chega em casa do trabalho e mais um ou dois até dormir. tento ser honesta e conto pra ele que eu tomo apenas dois, um de manhã e um na volta pra casa e que isso já é mais do que eu sempre tomei na minha vida montanhesa no sul de minas. 


segunda-feira, 19 de janeiro de 2026

diário de chegada I

não sei o que me deu, mas não tinha a mínima ideia de que seria aprovada nesta prova.
escolhi o Acre sem nunca ter ido nem sonhado em conhecer. 

saio da montanha de Santo Antônio do Alto Rio Grande, do frio e do silêncio. passo por Penedo para me despedir da família mais próxima e de lá sigo com o Leo para São Paulo, onde passamos os últimos dias nos despedindo.  

e eis que em 16 de outubro saio da Santa Cecília de madrugada, pego as malas na Liberdade e já com aquela dor de cabeça do cansaço acumulado sou levada pra Guarulhos pelo Leo querido amigo amado, estilista da montanha. só sei que despachar mala em tempos de autoatendimento é simplesmente guerra, você que lute para conseguir chegar no portão no tempo certo, ainda mais estressada ao realizar a maior mudança da sua vida. 

4 horas depois chego naquele pequeno aeroporto abafado de rio branco e encontro um uber para ir até a rodoviária, compartilhado, como todo o transporte daqui. cada vez mais exausta percebo como fui irresponsável de dormir mal logo nos 3 dias que antecedem enfrentar tudo isso, mas queria muito encontrar aquele cara interessante e era a única chance, a única chance em tanto tempo a perder de vista... o fato é que, já faminta, na rodoviária fico parada com as malas, das quais preciso cuidar enquanto como castanhas. peço a alguém pra olhar a bagagem enquanto corro até a lanchonete e não encontro nada que me apeteça. uma fresca natureba que evitava frituras e ultraprocessados que aos poucos percebe que a vida vai mudar. 

um mês depois já virei carnívora mesmo, sinto vontade de carne até de noite, até porque a carne do Acre é a melhor do país. mas voltando ao assunto, da rodoviária entro no carro com 4 homens e me colocam no meio, apertada entre dois sujeitos que me fazem sentir constrangida. cubro a barriga com a jaqueta e me embolo na echarpe tentando me proteger do jato de ar condicionado que me acerta. o que passa na minha cabeça é como eu me desafio a vivenciar certas situações nas quais a maioria das pessoas não ousaria se aproximar. estou num carro indo para fins do Brasil, sem ter a mínima ideia de como será e sem conhecer ninguém. e aí o carro quebra, ou fica sem gasolina. resolvo comprar uma panqueca de carne numa birosca qualquer, onde peço para ir ao banheiro e fico bem chocada com a situação precária. foi difícil mas encaro a panqueca depois do banheiro, compro um litro de garapa e tento convencer meus colegas de veículo a tomarem comigo, um deles aceita e o carro torna a funcionar. fico carregando aquela garrafa melada de caldo de cana enquanto tento controlar a jaqueta e a echarpe.  chegamos afinal e saio do gelo do carro para algo que parece uma sauna, a pousada - que por sorte tem piscina e mangueiras - onde me instalo na pequena suíte com varanda. me estranha o fato dos pedaços de plástico e restos de lixo por todo o canto, no quintal, na unidade onde trabalho, na rua. lixo é coisa fácil de ser encontrada, o que você esperava da região amazônica? encontro gado, lixo e estradas sem radar onde geral trafega em alta velocidade, e de forma razoavelmente segura. 

essa minha cidade na verdade são 3 conurbadas, epitaciolandia, brasileia e cobija, as pessoas andam de mototaxi e não tem transporte público, mas muita gente pedala. no primeiro sábado fui ver uns apartamentos horríveis e fedorentos destinados a estudantes, que não merecem mesmo nada de bom, aparenetemente. percebi que minha casa vai ser a pousada mesmo. depois de visitar os tais imóveis, atravessei a pé pra cobija e pela primeira vez em solo boliviano arrisquei um portunhol pro guarda da fronteira: puedo pasar? e ele: pasa, pasa! andei pesarosa até uma praça bonita e deserta, era véspera da eleição nacional. essa parte bem pertinho atrai brasileiros com suas lojas de quinquilharias de toda a américa do sul. comprei cerejas e pepinillos do chile, além de ostras enlatadas e fiquei contente. 

subi a rua até o mercado local rodeado de peluquerias e que me lembra a india: povos tradicionais com sua rica cultura contrastam com o esgoto correndo na lateral da rua. ali encontrei ají dulce, ou pimenta de cheiro, coisa que amava no ceará. o alto acre foi todo colonizado por soldados da borracha e a cultura nordestina fundou este lugar, muito diferente de outras regiões amazônicas. aos poucos vou perceber o quanto de nordeste tá presente aqui, nos hábitos culinários e nos modos de ser e existir. (como o nordeste é o melhor do brasil em 3 meses já me sinto adaptada e não tenho pressa em me mudar do acre, acho o sudeste muito longe e me arrependo de ter comprado uma passagem pra passear por lá.)

ainda confusa sobre o que de fato necessiro, comprei um guarda-chuva roxo (que quase nunca usei) numa loja e a criança mega simpática me fez sentir animada só pelo fato de que a entendia o meu espanhol e achava graça. em seguida um gesto arriscado (que só percebi depois que tive diarreia) foi pedir que um mototaxi me levasse até Las Palmas, restaurante indicado pelo TripAdvisor e único que tive coragem de provar, já que todos os colegas me disseram para não comer na Bolivia (na verdade bolivia aqui é sinônimo de cobija, já cochabamba tem comidas incriveis e é a capital das flores e da gastornomia boliviana). pedi uma paceña, que é a cerveja local, e gostei do sabor. tive que pedir uma garrafa grande, a única que havia. e logo o dono do restaurante me pediu para deixar em cima da cadeira porque era véspera de eleição e proibia-se a venda de bebida, mas alguém se esqueceu de me avisar e agora eu já estava ali bebendo.

no fim era bem ruim esse Las Palmas também, comparado com a comida acreana e seu tempero nordestino maravilhoso. um arroz cheio de petit-pois e pedacinhos de presunto impossíveis de catar, um frango engordurado e uma batata frita similar. só vi vantagem nos molhinhos que acompanhavam o frango: vinagrete de cebola roxa, chimichurri e molho vermelho de pimenta. pedi uma maionese pra comer com a batata, adoro e sempre me lembra de pulp fiction. precavida com a suposta falta de higiene boliviana, conferi a data de validade, que era 2021 e então não pude consumí-la. depois de pagar a conta avisei pra garçonete sobre a maionese e ela me disse que era só o recipiente velho. então tá, tudo certo, né?

as manguitas do quintal são uma delícia, com o calor perco a fome e só como manga. e mais, com o calor eu passo fome mas não quero comer, é confuso e não sei como agir. talvez a falta de fome tenha a ver com a minha própria dificuldade em encontrar o meu lugar, o meu conforto.



domingo, 6 de julho de 2025

a velha toma chá

envelheço e me recuso a comprar a ideia de que a felicidade só chega a algum modelo ideal de beleza, a quem se mantém jovem eternamente. o aprendizado tem sido, pelo contrário, o de desaprender obrigações historicamente assimiladas no afã de pertencer.

quero assumir a plenos pulmões a vida única que há aqui e expressar o que pulsa sem almejar ser aceita. como a terra, firme e inteira, assumo as cicatrizes como aquilo que me fortalece. ainda que tenha sido dor, é também cura.

não por capricho ajo a partir de uma verdade genuinamente profunda. me sinto bela: potente, real e genuína.

domingo, 29 de junho de 2025

qual a receita pra ser eu mesma?

quando pequena eu mesma decidi que precisava ser estudiosa, responsável e guardar as emoções mal-vistas. essa parece uma marca indelével, a de não agir no mundo a partir do meu desejo e da minha necessidade, mas a partir do olhar do outro.

quando íamos ao hospital a psicóloga me perguntava se estava tudo bem. na frente do meu pai, eu engolia o choro e dizia que sim, era ótima aluna e assim o veredito era de que estava tudo bem e eu nem sabia a razão do choro que queria sair. não entendo até hoje porque eu tanto precisava esconder o meu sofrimento infantil e por que ele era tão pesado. nem tenho consciência do quanto eu devia sofrer com bullying e coisas do tipo. talvez eu achasse que já dava trabalho bastante para os meus pais e não queria gerar mais problemas sendo emocionalmente fraca.

existia um movimento na vida enquanto eu crescia: tentar pertencer, ser querida e amada ao mesmo tempo em que evitava a todo custo ser rejeitada. ao menor sinal de que seria rejeitada eu me distanciava, talvez vivesse até numa eterna paranoia e medo de ser excluída e via sinal onde não tinha.

uma vez, aos 9 anos, as meninas da escola onde eu estava, que era bem legal, foram pro ponto de ônibus sem me chamar, quando costumávamos ir juntas. isso me afetou tanto e me senti retirada do grupo. pedi a minha mãe para mudar de escola e ela assim o fez. hoje me pergunto se essa questão não poderia ter sido superada, mas ela tentou o tempo todo me proteger da dor e não encará-la. eu sozinha entendi que a dor era suportável e que quanto mais eu a abraçasse, menor ela ficava.

 

segunda-feira, 12 de maio de 2025

saude em construcao
dente quebra com goiaba e ouvido precisa de antibiotico
podia ficar mal, depre, mas continuo nessa onda morna, nem feliz, nem triste.

01/07/2011

gostosa...

Ele dorme quando ela o acorda já com a mão em seu pau. Não entende como ele a faz tão molhada, ou melhor, como alguns a fazem tão excitada enquanto outros não. Precisa se dedicar à arte da sedução, coisa pra que leva jeito. 

03/11/2010

obsessão infantil

meu grande problema na infância era o nariz torto.
sonhava com meus 15 anos quando me fora prometido fazer uma plástica que o consertaria.

o combinado não se confirmou e aos 17 entendi que o nariz nunca seria como eu esperava.

os médicos tinham se dado conta que era mais fácil consertar o nariz do bebê do que deixar ele crescer tão torto como o meu.

implorava por uma caixa de bubbaloo quando tirasse o aparelho dos dentes, adorava chiclete mas era proibida. era também proibida de molhar o ouvido, nada de ondas, mergulhos ou loucuras.

é estranho que tudo isso pareça tão longe, mas de alguma forma ainda esteja tão presente: um nariz protagonista que me liderou rumo à busca de algum outro sentido.