sábado, 11 de julho de 2026

os óculos escuros quebrados, sinto um vazio

me acompanharam por anos a perder de vista.


comprados no largo do machado de uma senhora que colecionava objetos de leilão e alugava pro audiovisual. as lentes âmbar me deixavam confortável tanto ao ar livre quanto em espaços internos.

sem eles, me sinto nua e nem sei em que ano foi, nunca troquei as lentes. cerca de 15 anos, que loucura uma coisa te acompanhar assim por tanto tempo, usava esses óculos escuros tão frequentemente que nem sei ainda como viver sem.

nunca um objeto testemunhou tanto da minha vida, desde a encarnação carioca, passando pela mineira e chegando à acriana. 



o regalo de um happy hour na sexta-feira na vida da classe trabalhadora

curioso viver uma vida dedicada a um trabalho de 40 horas, a rotina gera uma gangorra de sentimentos.

me sinto bastante desimportante, mas me contenho porque dessa maneira consideraria toda a classe trabalhadora dessa forma. por outro lado, fico satisfeita exatamente por fazer parte dessa classe que goza do sábado e do domingo como nenhum herdeiro seria capaz. entendo mais do que nunca o significa "sextou!"

viver sozinha é mais uma questão paradoxal. 

tenho consciência de que sinto saudade da família e dos amigos, mas não consigo assumir isso de uma maneira concreta. talvez pelo pragmatismo excessivo, tenha deixado de lado até o meu afeto pelos cachorros e gatos que ficaram no sul, como se a vida fosse simplesmente seguir em frente sem deixar com que dramas excessivos sejam criados nem causem um desgaste emocional extra. praticidades dessa personalidade que me foi forjada.

por outro lado, o prazer de estar sozinha e viver uma rotina sem negociação é um deleite. uma espécie de estranho deleite, já que me faltam afetos, mas me divirto com pequenas conquistas, como estar suficientemente disposta e até animada para fazer minha própria comida e congelar parte dela para os momentos de preguiça, atitude essencial de mora sozinha e sabe que virão dias de ciclo menstrual ou retornos exaustivos de idas a campo.

na última quarta fizemos uma ronda noturna, ainda que eu estivesse sem impressora, o que me impediria de elaborar qualquer auto. a presença de luzes fortes nas viaturas e o sacolejo dos carros nos ramais poeirentos e esburacados me fizeram passar o dia seguinte, uma merecida folga, completamente inútil e entregue à enxaqueca e ao mal-estar.

de repente eu me vejo trabalhando com a Polícia Militar, abordando cidadãos e me perguntando onde é que fui me meter. passei a vida temendo a polícia e odiando uma política de extermínio horrorosa, mas agora preciso defender a letra da lei, ainda que seja a partir de um poder administrativo voltado à proteção ambiental.

 



 

terça-feira, 26 de maio de 2026

6 meses de Alto Acre

objetos em ordem cronológica

1 a cama na qual durmo e me recosto para escrever e ver filmes, ontem um iraniano lindo que retratava a opressão familiar contra as mulheres e hoje um documentário que mostra a opressão russa atual, "escondida" do mundo. ou seja, o mundo é uma briga de jagunço como a que retratou Guimarães Rosa, e como bem leu o papai.

2 a geladeira que salvou a minha vida, embora eu nunca tenha reconhecido a importância desse objeto assim como agora o percebo, guarda todas as comidas, geladas ou não, e as mantêm relativamente a salvo do clima quente e úmido do Alto Acre;

3 a airfryer com a qual começo a me adaptar, só deveria ser autolimpante, me trabalho para lavar sem reclamar, só agradecer. me tornei uma daquelas pessoas exaustas dessa sociedade do cansaço, que ao invés de preparar o seu próprio leite de côco caseiro coloca um pão de queijo congelado na airfryer dando graças a deus que exista.

4 uma panela de arroz ganhada de amigos que sempre têm mil ideias e depois desistem, acumulando objetos desnecessários que em algum momento serão novamente úteis em casas alheias. e como as opiniões mudam, eu mesma não gostava dessa panela quando a tínhamos em casa, ficou para o vinicius de herança. já essa pequerrucha eu amo só pelo fato de que o cateto fica parecendo japonês e eu não preciso mais vigiar neuroticamente o fogareiro que queima rapidamente qualquer substância caso me distraia. e antes tinha a questão da presença do fogo, dos aprendizados do ayurveda. agora o que tá tendo é praticidade e conforto.

5 a panela de pressão elétrica que um amigo fez questão de me avisar estar disponível de um casal que vai se mudar e vendia a bom preço, ela em breve chegará.

dois não objetos concretos de tão vivos

6 a Barquinha roubou o meu coração exatamente 6 meses depois de colocar os pés no Acre, parecia esperar o momento certo e eu só posso agradecer por sentir esse amor da mesma forma como o senti no Ashram de Sri Sarada Devi, em Pune, em 2019.

7 um imenso alívio perceber que a suposta crise de labirintite é na verdade um uso excessivo de cbd, que ainda sim é mínimo, mas o mínimo para este corpo é máximo e gera muitas consequências. o fato é que depois de horas no posto de saúde eu pesquisei e sim, pessoas sensíveis podem sentir vertigem ao consumirem cbd, e logo fiz a conexão de algum excesso de vata que vem com essa substância que paradoxalmente relaxa, enquanto o vata é a mil por hora.

domingo, 10 de maio de 2026

caos de quatro meses

estou aqui há 3 meses e as moças do ICMBio me chamaram pra sair e me incluiram no grupinho delas. fiquei animada com aquela sensação de pessoas da mesma tribo se encontrando.

ET nesse tempo e espaço, percebo que a minha configuração estética se parece mais com as pessoas do filme norueguês Valor sentimental do que com meus co-habitantes de Epitaciolândia, fisicamente tão próximos. 

procuro me manter flexível e aberta para o novo, mas há coisas que me incomodam e não se movem, como uma sensação atrasada de valores morais, machistas e preconceituosos, que permeia a sociedade local. 

talvez eu sempre tenha sido esquisita, mas aqui o adjetivo me persegue desde o que e como me alimento até como me locomovo e como penso politicamente. isso implica estar sempre neste lugar deslocado de forasteira, excêntrica e chocante. aos poucos percebo que isso cansa, desgasta não estar no seu lugar e sentir não ser compreendida o tempo todo.

enquanto isso vou me preparando para me tornar uma espécie de policial ambiental. me pergunto se estou batendo bem, que sentido tem nisso tudo, mas encontro algum. é preciso barrar a destruição da floresta, e se é esse o caminho, que seja, então, trilhado.

neste começo de curso ead pego chuva, vem uma gripe intensa e até tento cancelar o voo pro sudeste. já não dá. a viagem é tão cansativa que prenuncia os anos vindouros, entendo que é preciso tempo para descansar e é preciso menos deslocamentos, é preciso estar mais tempo no mesmo lugar e construir rotinas. quando volto pro acre retomo a vida na casa suíte-varanda e encontro alívio e prazer na rotina.

ainda que sempre tenha sido uma jovem-senhora, aos poucos me torno uma senhora-senhora. prefiro dormir cedo e acordar cedo com vigor, praticar yoga e sair com energia e alegria para o dia. como se isso valesse mais do que qualquer date, e já não bebo nem o pouco a que antes me dispunha.

o resumo é que foi até bom o sudeste mas é puxado demais: são paulo, penedo, santo antonio, penedo, são paulo. cancelo a ida ao rio e o encontro com tantas pessoas queridas. é assim a vida da trabalhadora aos 42. não reclamo pois vivi até aqui sem esse compromisso, mas também sem o salário.

quando volto pro acre já me sinto em casa no meu quarto-chalé, tiro a airfryer da caixa e pela primeira vez compro uma lasanha congelada, cheia de algo que forja ser um queijo e com muita noz moscada. esquento e me sinto feliz de ter a chance de comer uma comida congelada e comprar qualquer coisa que eu queira com o meu salário. 

aos poucos vou entendendo o que significa ganhar melhor do que antes, significa o acesso a coisas sem ter que me preocupar com quanto será a conta. em rio branco descobri um mercado muito bom que inclusive serve refeições. lá eu compro coalhada seca, pão ciabatta, biscoito de canela importado, queijo meia cura e outras regalias mais. 

 comprei vários cappuccino e já me doeu o ouvido, voltei a tomar cevada. apesar de adaptada neste quarto estilo acampada tem horas que cansa a falta de espaço, a cabeça tem que sempre planejar os movimentos. se vou cozinhar preciso pegar cada coisa na geladeira, usar uma bandeja e fazer caber tudo na pequena mesa da varanda. em alguns momentos levantar para lavar a mão que é coisa que se faz o tempo todo numa cozinha comum, você suja a mão de sal, de tomate, de azeite... 

as coisas podem parecer difíceis mas sempre tem o lado bom. estar sozinha comigo mesma é também ter a oportunidade de fazer apenas o que eu quero, de não estar submetida às obrigações sociais, familiares ou pressões dos amigos. às vezes eu me sinto a pessoa mais antissocial do mundo por ver essas vantagens em estar isolada. percebo que tem uma coisa curiosa, que eu sempre me coloquei disponível para o que os outros desejavam fazer ou para o que parecia fazer sentido dedicar o meu tempo, mas aqui não tem isso. o meu tempo livre é dedicado apenas ao que me apatece e também ao que sou obrigada, como lavar louça, lavar calcinhas, varrer o quarto, passar pano com álcool na mesa que chamo de cozinha, enfim. fazer uma comida no domingo, guardar em potes de inox que trouxemos da Índia e que por sorte ficaram como herança minha.

 

domingo, 1 de março de 2026

ineditismos

um encontro numa festa, parecia que ele dava em cima dela. disse que podia buscá-la no aeroporto quando chegasse de viagem. a conversa fluía bem e cheia de emojis e cuidados, animou a moça.

lancharam hamburger e noutro dia jantaram espeto, que é uma tradição local, a carne de vaca sempre presente nas mesas dos lares e comércios.  a impressão que tinha dele era de alguém titubeante, que se aproximava e se afastava numa espécie de dança confusa. sozinha e distante, a moça aceitou o bailado.

meia dúzia de vezes, ela enfim pergunta qual é a dele. mais uma vez nebuloso, diz estar avoado com problemas familiares e que a amizade dela era boa.

o mundo é assim, mira-se em algum que pode não calhar. não entende porque insiste já que é um caótico rapaz. nem tudo tem explicação. talvez o medo de rejeição a faça tentar ser amada, querida no espaço e local em que foi negada, insistir que é possível. 

ela se afasta, e em algum momento se reaproxima. ele investe mais pesado, sempre presente, atento, curioso e interessado. ela pensa que algo mudou, se equivoca.

fica pensando em quantos mundos existem, que situação curiosa e intrigante pela qual não havia passado antes. sempre há ineditismos prestes a eclodir em nossas vidas pacatas e mornas. 

 

quinta-feira, 22 de janeiro de 2026

diário II

pressinto os desafios de uma sudestina natureba para se alimentar em um contexto completamente distinto e ainda mais inóspito, pros seus termos. desde o início pude perceber que ou cozinho diariamente ou como carne, gordura e frituras em quantidades bem maiores e frequentes do que estava acostumada.

uma pergunta que me surge é: como as pessoas estão bem de saúde consumindo frituras diariamente? o pollo é refeição frequente, do lado de lá e de cá da fronteira, pollo significa frango frito, literalmente. do lado brasileiro o tempero é maravilhoso, coentro e pimenta de cheiro, mas também muita gordura. na primeira semana tenho diarréia por vários dias e preciso almoçar pão com pepino.
a chegada nesse novo mundo me fez habitar uma suíte na Pousada Laurian, cujas mangueiras e frutíferas contrastavam, na minha perspectiva, com a falta de organização na gestão de resíduos, tinha lixo pelo quintal e na lixeira misturava-se tudo, além de um alto consumo de isopor e plástico, em forma de sacolas, marmitas e potes de comida de uso único.
no trabalho, tem sido difícil construir uma relação com meus colegas e deixar de lado muita coisa que me incomodava nas práticas da unidade, uma delas era o lixo, todo misturado, não havia nem lixo orgânico e a falta de política de resíduos somada ao uso excessivo de embalagens plásticas e de isopor me causava profundo incômodo, foi o que mais me desafiou nessa chegada. a cada almoço, um monte de marmitas de isopor e o lixo já estava lotado novamente, de plástico, isopor e restos de comida. 
acordo cedo no começo com facilidade para ir trabalhar, caminho pela
BR 317, a do Pacífico, sem calçada, pela lama lateral, porque se eu tentar não sujar meu pé fico realmente muito na beira da estrada e se vem uma carreta pode me atropelar, então o jeito é enfrentar a lama que quando chove é bem melecada, mas quando tá sol fica mais firminha e nem gruda no sapato. isso foi rolando por um mês e meio, até a chegada da bicicleta que demorou bastante até aqui. com ela eu passei a pedalar pela rodovia, chegava mais rápido e me protegia da lama nos sapatos. e continuo nessa, só me dá preguiça de ir pra bolívia porque é perto mas é longe.

adentrando o mundo acriano na fronteira de perfil reacionário e agrotech, me torno dona lila, o que no começo me incomoda porque parece uma indicação da velhice nos cabelos grisalhos, mas no fim é isso mesmo. talvez me falte entender que virei uma senhora, ainda que eu considere esse tratamento a expressão de uma visão ultrapassada da vida, tanto de hierarquias sem sentido quanto de um padrão estético muito pouco consciente das conquistas feministas e progressistas vigentes no sudeste.


um colega toma 5 banhos por dia ou mais, um de manhã antes do trabalho, um em casa antes do almoço e outro antes de voltar para o trabalho, ou seja dois banhos em menos de duas horas. toma outro quando chega em casa do trabalho e mais um ou dois até dormir. tento ser honesta e conto pra ele que eu tomo apenas dois, um de manhã e um na volta pra casa e que isso já é mais do que eu sempre tomei na minha vida. 


segunda-feira, 19 de janeiro de 2026

diário de chegada I

não sei o que me deu, não tinha a mínima ideia de que seria aprovada nesta prova.
escolhi o Acre sem nunca ter nem sonhado conhecer. 

saio da montanha de Santo Antônio do Alto Rio Grande, do frio e do silêncio. passo por Penedo e me despeço da família mais próxima. de lá, São Paulo, onde passamos os últimos dias.  

e eis que em 16 de outubro saio da Santa Cecília de madrugada, pego as malas na Liberdade e já com aquela dor de cabeça do cansaço acumulado sou levada pra Guarulhos pelo Leo querido amigo amado, estilista da montanha. só sei que despachar mala em tempos de autoatendimento é simplesmente guerra, você que lute para conseguir chegar no portão no tempo certo, estressada ao realizar a maior mudança da sua vida. 

4 horas depois chego naquele pequeno aeroporto abafado de rio branco e encontro um uber para ir até a rodoviária, compartilhado, como todo o transporte daqui. cada vez mais exausta percebo como fui irresponsável de dormir mal logo nos 3 dias que antecedem enfrentar tudo isso, mas queria muito encontrar aquele cara interessante e era a única chance, a única chance em tanto tempo a perder de vista... 

o fato é que, já faminta, na rodoviária fico parada com as malas, das quais preciso cuidar enquanto como castanhas. peço a alguém pra olhar a bagagem enquanto corro até a lanchonete e não encontro nada que me apeteça. uma fresca natureba que evitava frituras e ultraprocessados aos poucos percebe que a vida vai mudar. 

um mês depois já virei carnívora mesmo, sinto vontade de carne até de noite, até porque a carne do Acre é a melhor do país. mas voltando ao assunto, da rodoviária entro no carro com 4 homens e me colocam no meio, apertada entre dois sujeitos que me fazem sentir constrangida. cubro a barriga com a jaqueta e me embolo na echarpe tentando me proteger do jato de ar condicionado que me acerta. o que passa na minha cabeça é como eu me desafio a vivenciar certas situações das quais a maioria das pessoas não ousaria se aproximar. 

estou num carro indo para fins do Brasil, sem a mínima ideia de como será e sem conhecer ninguém. e aí o carro quebra, ou fica sem gasolina. resolvo comprar uma panqueca de carne numa birosca qualquer, onde peço para ir ao banheiro e me choca a situação precária. foi difícil mas encaro a panqueca depois do banheiro, compro um litro de garapa e tento convencer meus colegas de veículo a tomarem comigo, um deles aceita e o carro torna a funcionar. fico carregando aquela garrafa melada de caldo de cana enquanto tento controlar a jaqueta e a echarpe.  chegamos afinal e saio do gelo do carro para algo que parece uma sauna, a pousada - que por sorte tem piscina e mangueiras -, onde me instalo na pequena suíte com varanda. me estranha o fato dos pedaços de plástico e restos de lixo por todo o canto, no quintal, na rua. lixo é coisa fácil de se encontrar, o que você esperava da região amazônica? encontro gado, lixo e estradas sem radar onde geral trafega em alta velocidade, ainda que de forma razoavelmente segura. 

essa minha cidade na verdade são 3 conurbadas, epitaciolandia, brasileia e cobija, as pessoas andam de mototaxi e não tem transporte público, mas muita gente pedala. no primeiro sábado fui ver uns apartamentos horríveis destinados a estudantes, que parecem não merecer mesmo nada de bom, aparentemente. percebi que minha casa vai ser a pousada mesmo.

depois de visitar os tais imóveis, atravessei a pé pra cobija e pela primeira vez em solo boliviano arrisquei um portunhol pro guarda da fronteira: puedo pasar? e ele: pasa, pasa! andei pesarosa até uma praça bonita e deserta, era véspera da eleição nacional. essa parte bem pertinho atrai brasileiros com suas lojas de quinquilharias de toda a américa do sul. comprei cerejas e pepinillos do chile, além de ostras enlatadas e fiquei contente. 

subi a rua até o mercado local rodeado de peluquerias e que me lembra a india: povos tradicionais com sua rica cultura contrastam com o esgoto correndo na lateral da rua. ali encontrei ají dulce, ou pimenta de cheiro, coisa que amava no ceará. o alto acre foi todo colonizado por soldados da borracha e a cultura nordestina fundou este lugar, muito diferente de outras regiões amazônicas. aos poucos vou perceber o quanto de nordeste tá presente aqui, nos hábitos culinários e nos modos de ser e existir. (como o nordeste é o melhor do brasil em 3 meses já me sinto adaptada e não tenho pressa em me mudar do acre, acho o sudeste muito longe e me arrependo de ter comprado uma passagem pra passear por lá.)

ainda confusa sobre o que necessito, compro um guarda-chuva roxo (que quase nunca usei) numa loja e a criança mega simpática me fez sentir animada só pelo fato de que a entendia o meu espanhol e achava graça. em seguida um gesto arriscado (que só percebi depois que tive diarréia) foi pedir que um mototaxi me levasse até Las Palmas, restaurante indicado pelo TripAdvisor e o único que tive coragem de provar, já que todos os colegas me disseram para não comer na Bolivia (na verdade bolivia aqui é sinônimo de cobija, já cochabamba tem comidas incriveis e é a capital das flores e da gastornomia boliviana). 

peço uma paceña, que é a cerveja local, e gosto do sabor. e uma garrafa grande, a única que havia. logo o dono do restaurante me diz pra deixar a garrafa na cadeira porque era véspera de eleição e proibia-se a venda de bebida, mas alguém se esqueceu de me avisar e agora eu já estava ali bebendo.

no fim era bem ruim esse Las Palmas, comparado com a comida acreana e seu tempero nordestino. um arroz cheio de petit-pois e pedacinhos de presunto impossíveis de catar, um frango engordurado e batata frita similar. só vi vantagem nos molhinhos que acompanhavam o frango: vinagrete de cebola roxa, chimichurri e molho vermelho de pimenta. 

pedi uma maionese pra comer com a batata, sempre me lembra de pulp fiction. precavida com a suposta falta de higiene boliviana, conferi a data de validade, que era 2021, e então não pude consumí-la. depois de pagar a conta avisei pra garçonete sobre a maionese e ela me disse que era só o recipiente velho. então tá, tudo certo, né?

as manguitas do quintal são uma delícia, com o calor perco a fome e só como manga. e mais, com o calor eu passo fome mas não quero comer, é confuso e não sei como agir. talvez a falta de fome tenha a ver com a minha própria dificuldade em encontrar o meu lugar, o meu conforto. mas aos poucos encontro e amo o calor amazônico.