quarta-feira, 23 de março de 2011

em busca de ar e de amor

como o inesperado me tomba e tira do prumo a crença em que mais confiava. o estômago sucumbe à dor que a tristeza traz, junto com o ar pesado que nunca antes havia sido respirado. os mau-entendidos podem dar cabo de um amor que promete muito, e preciso notar que faz parte da vida. são as loucuras da mente de cada um que não se juntam às da mente de cada outro, e por fim se chocam e se estilhaçam quando menos se espera. esperar mesmo eu nunca esperei. por um momento carrego toda a culpa do que fui, do que sou e do que não pude ser, será que um dia vou conseguir abarcar a lila que sente, que ama e que entende tudo? ou me resigno em aceitar a lila que trabalha, abstrai, erra e segue em frente?

sexta-feira, 25 de fevereiro de 2011

questões de cubas de pias

Pode parecer frescura, mas não suporto cuba de pia pequena.
Quando você precisa lavar o rosto a água cai toda fora do espaço micro compreendido por tal objeto. O que não entendo disso é quem foi o sujeito que decidiu que era moda e inculcou a idéia pra outros sujeitos criadores de tendências...

segunda-feira, 7 de fevereiro de 2011

Ao dentista, Toda ouvidos


Uma boa maneira de observar a cultura paulista é submeter-se aqui - em terras paulistanas - a uma cirurgia na gengiva a utilizar somente anestesia local, o que implica estar atento a escutar e sentir o entorno do consultório. 

Enquanto Dr. Rander e sua assistente, mais os papagaios de plantão, retiram um retalho do meu céu da boca - para em seguida enxertá-lo na gengiva inferior de minha boca aberta e cansada - escuto seus colegas a discutir pontos de seus respectivos futuros casamentos, e todas as dificuldades inerentes ao acontecimento, como encontrar uma data próxima na Igreja, fazer curso pra noivos, entender as mulheres e assim encontrar sua alma gêmea, etc. Acho estranho, afinal, quem tanto quer se casar hoje em dia?

Dr. Rander, utilizando bisturi, entra na conversa e confessa que para estar ao lado de sua amada faria um curso de dois anos - uma residência em casamento. No meio do papo ele retira a gordura do meu retalho de carne de céu da boca e inicia a sutura da gengiva, a manejar linha e agulha, que mais parece um mini-anzolzinho a flutuar por entre minhas carnes anestesiadas. sinto assim uns barulhinhos esquisitos que doeriam, o anzol cruza de fora pra dentro e vice-versa, causando uma aflição nauseabunda. 

Nesse interim, continuo escutando dos paulistas suas opiniões sobre as praias do verão, onde será que tem o melhor show, da claudia leite, e um mega aquário recém-reformado magnifíco. só não fui capaz de ouvir bem a que praia se referiam, mas supus que era a da baleia, no litoral santista, talvez a ideia do aquário gigante me tenha levado a ela. 

Pode no momento o leitor mais atento (o leitor zero, ou o menos um) estar se perguntando o porquê de tamanho sangue frio da narradora, mas já aí lhe explico, a fim de evitar mal-entendidos: acontece que já havia sofrido intervenção similar anteriormente, o que na ocasião me causou tremenda aflição - de modo que aqui o esforço em ater-me às conversas e a respirar fundo dominou meu ser, ou a agulha em forma de anzol teria sido capaz de me causar maiores ânsias e impedir-me de escutar os desejos mais sinceros de meus queridos doutores paulistas.

quarta-feira, 26 de janeiro de 2011

a lama, o poço e a aceitação do ser

Essa coisa de enjôo alheio é estranha, me surge um asco, sem alguma razão, ou a habitar tão obscuramente em meu ser que não a posso encontrar. Me sinto uma não-humanista, que devia amar o próximo sem ressalvas, sem críticas, dedicando-lhe todo o altruísmo de que tenha vazão. Como safar-se sem nódoas, sem retalhar-se?

Seria talvez aceitar o mundo sem querer conversa, aceitar a dor e o afastamento, o ciúme e a desilusão. Aceitar-se como se é, sem querer que ser amada se não pode trocar suficiente para tal.

sexta-feira, 21 de janeiro de 2011

diálogo com ilusionista de 10 anos de idade

"- Viu quando ele entra no cinema e está passando o filme dele mesmo, o Mon oncle?
-Não era o Playtime?
-Era o Mon oncle, eu tenho todos, sei qual é qual.
-Ah, tá, diz a prima mais velha, abismada com as crianças atuais"

quarta-feira, 5 de janeiro de 2011

bobagens

pedro costa e geert mannaerts são meus dois ídolos.
interessante como todo o charme e talento vão pra duas pessoas e não se dividem por toda a humanidade..

sábado, 18 de dezembro de 2010

"O outro, se não tem razão, tem suas razões"

Essa foi a frase mais bacana que ouvi do Coutinho e que me pareceu no momento a tônica de um bom documentarista. Essa capacidade de se despir de crenças e preconceitos e tentar viver um pouco na pele do outro, antes de sair a discorrer sobre os males do mundo. Talvez ser documentarista agora implica ir contra o individualismo que rege nossa vida cotidiana: parar para olhar e ouvir o camponês, indivíduo dos mais injustiçados e desvalorizados, cuja sabedoria e existência ultrapassa - a meu ver - as de intelectuais que citam Darcy Ribeiro e Milton Santos, mas não enxergam um palmo fora da zona em que nasceram e cresceram com suas babás negras vestidas de branco. O documentarista verdadeiro não pre-julga, mas busca conhecer - sentir a existência pra fora dele - e assim poder olhar o mundo cada vez mais deslumbrado com o que vê.