terça-feira, 26 de maio de 2026

6 meses de Alto Acre

objetos em ordem cronológica

1 a cama na qual durmo e me recosto para escrever e ver filmes, ontem um iraniano lindo que retratava a opressão familiar contra as mulheres e hoje um documentário que mostra a opressão russa atual, "escondida" do mundo. ou seja, o mundo é uma briga de jagunço como a que retratou Guimarães Rosa, e como bem leu o papai.

2 a geladeira que salvou a minha vida, embora eu nunca tenha reconhecido a importância desse objeto assim como agora o percebo, guarda todas as comidas, geladas ou não, e as mantêm relativamente a salvo do clima quente e úmido do Alto Acre;

3 a airfryer com a qual começo a me adaptar, só deveria ser autolimpante, me trabalho para lavar sem reclamar, só agradecer. me tornei uma daquelas pessoas exaustas dessa sociedade do cansaço, que ao invés de preparar o seu próprio leite de côco caseiro coloca um pão de queijo congelado na airfryer dando graças a deus que exista.

4 uma panela de arroz ganhada de amigos que sempre têm mil ideias e depois desistem, acumulando objetos desnecessários que em algum momento serão novamente úteis em casas alheias. e como as opiniões mudam, eu mesma não gostava dessa panela quando a tínhamos em casa, ficou para o vinicius de herança. já essa pequerrucha eu amo só pelo fato de que o cateto fica parecendo japonês e eu não preciso mais vigiar neuroticamente o fogareiro que queima rapidamente qualquer substância caso me distraia. e antes tinha a questão da presença do fogo, dos aprendizados do ayurveda. agora o que tá tendo é praticidade e conforto.

5 a panela de pressão elétrica que um amigo fez questão de me avisar estar disponível de um casal que vai se mudar e vendia a bom preço, ela em breve chegará.

dois não objetos concretos de tão vivos

6 a Barquinha roubou o meu coração exatamente 6 meses depois de colocar os pés no Acre, parecia esperar o momento certo e eu só posso agradecer por sentir esse amor da mesma forma como o senti no Ashram de Sri Sarada Devi, em Pune, em 2019.

7 um imenso alívio perceber que a suposta crise de labirintite é na verdade um uso excessivo de cbd, que ainda sim é mínimo, mas o mínimo para este corpo é máximo e gera muitas consequências. o fato é que depois de horas no posto de saúde eu pesquisei e sim, pessoas sensíveis podem sentir vertigem ao consumirem cbd, e logo fiz a conexão de algum excesso de vata que vem com essa substância que paradoxalmente relaxa, enquanto o vata é a ml por hora.

domingo, 10 de maio de 2026

caos de quatro meses

estou aqui há 3 meses e as moças do ICMBio me chamaram pra sair e me incluiram no grupinho delas. fiquei animada com aquela sensação de pessoas da mesma tribo se encontrando.

ET nesse tempo e espaço, percebo que a minha configuração estética se parece mais com as pessoas do filme norueguês Valor sentimental do que com meus co-habitantes de Epitaciolândia, fisicamente tão próximos. 

procuro me manter flexível e aberta para o novo, mas há coisas que me incomodam e não se movem, como uma sensação atrasada de valores morais, machistas e preconceituosos, que permeia a sociedade local. 

talvez eu sempre tenha sido esquisita, mas aqui o adjetivo me persegue desde o que e como me alimento até como me locomovo e como penso politicamente. isso implica estar sempre neste lugar deslocado de forasteira, excêntrica e chocante. aos poucos percebo que isso cansa, desgasta não estar no seu lugar e sentir não ser compreendida o tempo todo.

enquanto isso vou me preparando para me tornar uma espécie de policial ambiental. me pergunto se estou batendo bem, que sentido tem nisso tudo, mas encontro algum. é preciso barrar a destruição da floresta, e se é esse o caminho, que seja, então, trilhado.

neste começo de curso ead pego chuva, vem uma gripe intensa e até tento cancelar o voo pro sudeste. já não dá. a viagem é tão cansativa que prenuncia os anos vindouros, entendo que é preciso tempo para descansar e é preciso menos deslocamentos, é preciso estar mais tempo no mesmo lugar e construir rotinas. quando volto pro acre retomo a vida na casa suíte-varanda e encontro alívio e prazer na rotina.

ainda que sempre tenha sido uma jovem-senhora, aos poucos me torno uma senhora-senhora. prefiro dormir cedo e acordar cedo com vigor, praticar yoga e sair com energia e alegria para o dia. como se isso valesse mais do que qualquer date, e já não bebo nem o pouco a que antes me dispunha.

o resumo é que foi até bom o sudeste mas é puxado demais: são paulo, penedo, santo antonio, penedo, são paulo. cancelo a ida ao rio e o encontro com tantas pessoas queridas. é assim a vida da trabalhadora aos 42. não reclamo pois vivi até aqui sem esse compromisso, mas também sem o salário.

quando volto pro acre já me sinto em casa no meu quarto-chalé, tiro a airfryer da caixa e pela primeira vez compro uma lasanha congelada, cheia de algo que forja ser um queijo e com muita noz moscada. esquento e me sinto feliz de ter a chance de comer uma comida congelada e comprar qualquer coisa que eu queira com o meu salário. 

aos poucos vou entendendo o que significa ganhar melhor do que antes, significa o acesso a coisas sem ter que me preocupar com quanto será a conta. em rio branco descobri um mercado muito bom que inclusive serve refeições. lá eu compro coalhada seca, pão ciabatta, biscoito de canela importado, queijo meia cura e outras regalias mais. 

 comprei vários cappuccino e já me doeu o ouvido, voltei a tomar cevada. apesar de adaptada neste quarto estilo acampada tem horas que cansa a falta de espaço, a cabeça tem que sempre planejar os movimentos. se vou cozinhar preciso pegar cada coisa na geladeira, usar uma bandeja e fazer caber tudo na pequena mesa da varanda. em alguns momentos levantar para lavar a mão que é coisa que se faz o tempo todo numa cozinha comum, você suja a mão de sal, de tomate, de azeite... 

as coisas podem parecer difíceis mas sempre tem o lado bom. estar sozinha comigo mesma é também ter a oportunidade de fazer apenas o que eu quero, de não estar submetida às obrigações sociais, familiares ou pressões dos amigos. às vezes eu me sinto a pessoa mais antissocial do mundo por ver essas vantagens em estar isolada. percebo que tem uma coisa curiosa, que eu sempre me coloquei disponível para o que os outros desejavam fazer ou para o que parecia fazer sentido dedicar o meu tempo, mas aqui não tem isso. o meu tempo livre é dedicado apenas ao que me apatece e também ao que sou obrigada, como lavar louça, lavar calcinhas, varrer o quarto, passar pano com álcool na mesa que chamo de cozinha, enfim. fazer uma comida no domingo, guardar em potes de inox que trouxemos da Índia e que por sorte ficaram como herança minha.