segunda-feira, 21 de outubro de 2019

Eu mesma



Lila, lindo nome do qual já desgostei

Almendra, da vó Laura dos confins de Portugal (outros o veem espanhol)
Praça, da vó Talitha e de um povo mouro quiçá rebatizado
Carvalho, não uso e já nem me lembro, família de homens que me des-representa
Sou das avós, das mães, das matriarcas e de seu sábio legado
Lana escolheu meu nome; Gustavo queria Rosaura
Lila é passatempo divino, brincadeira de Krsna
Exibe abertamente meu aprendizado: a leveza de voltar à infância
Olhar o mundo com espanto e redescobri-lo em sua beleza
Foi uma intuição de minha mãe que descortinou o dharma de minha vida
Tirar o peso de cima e acreditar num presente que já não é passado
Florescendo lila

terça-feira, 18 de junho de 2019

A esfinge em mim




o boi estava no brejo, mas havia sinais de que sairia.
a águia ansiosa, bem que tentava meditar, mas era tanta a missão que cumpria.
e ele, o leão, no fundo tinha aquele ranço de ser bonzinho – de nada negativo se achava no direito.

a flor desabrochava, tímida e descontraída, dona de paradoxos. com as marcas e padrões que pareciam lhe seguir, ela de vez em quando dava um olé e vencia, noutras vezes era tomada e repetia a mesma trilha, mesma ladainha de pessoinha pequena, apertada, feinha.

consciente de sua relativa grandeza, nem podia facilmente expressá-la, não havia quem lhe desse permissão. ela mesma é que tinha que conquistar, fazer-se centro de seu mundo sem medo do egoísmo, do convencimento de se achar importante demais.

passo a passo, se regalava a siesta, a preguiça, a gula e a rede.
se dava um banho sulfuroso e almejava-se completa não importa os que falam, os que julgam.

queria ser amada apesar disso, dela mesma, desse jeito: confusa e desabrochando de boniteza.

e a serpente se eleva, devagarinho.

terça-feira, 29 de janeiro de 2019

Brasil à venda, por muito pouco


Não é só em Brumadinho, no Brasil tá liberada a destruição, infelizmente.

Nós vivenciamos algo parecido em Caldas:

licenças ambientais sem análise técnica liberadas em ambiente que lembra a Rússia burocrática, onde ninguém pode questionar.

em seguida nove cidadãos são processados, cada um recebendo seis processos, por tentarem se opor à aprovação da licença. tentativa de intimidar mesmo, que ideia é essa de defender a natureza?

e a maioria da cidade de cabeça baixa para o "desenvolvimento" que chega e paga salário.

paga até acontecer tragédia, acabar a água e os empregos. capital que vale muito, vida que vale nada. até quando?

sábado, 22 de dezembro de 2018

🖤 Duas dicas para a saúde das mulheres

 Um poderoso chá para a TPM - tensão pré-menstrual:

🌱
 Alfacava (também conhecida como elixir-paregórico)
🍃 Melissa officinalis (a original, um arbusto de galho fino e folha mentolada)
🌾 Mil-folhas (ou novalgina natural)

Este chá é ideal para o ciclo lunar das mulheres: a melissa relaxa, a mil-folhas é analgésica e a alfavaca combate as cólicas.

Aprendi isso com um sábio mestre das ervas de Floripa, durante o Encontro de Agricultura Urbana em 2016. Um senhor incrível que cultiva todas as plantas possíveis e dá aula dos muitos saberes populares na universidade. Outra coisa que ele disse é que sempre devemos cultivar em casa a moringa e a ora-pro-nobis, plantas utilíssimas para a saúde e com elevado teor de proteínas.


🌵  Babosa - Aloe Vera

Outra coisa boa é consumir aloe vera, mas fui advertida a deixar escorrer aquela gosma amarela, a aloína, antes de utilizar. Depois você pode cortar ao meio, na longitudinal, e colocar num vaso de água por uns minutos. Daí ao beber a água vai sentir aquele gostinho de aloe.

Muito se fala das maravilhas da babosa, estudando Ayurveda descobri que seu gel é excelente para equilibrar distúrbios menstruais leves. Como a cada ciclo tenho enxaquecas resolvi começar uma rotina dedicada e aliviar o problema.
Cada tratamento depende do dosha (tipo psicofísico) predominante, faça um teste online e comece a se observar. Sempre vale correr atrás de se conhecer melhor! 🌹



Uma andorinha faz sim, verão

Neste ano de 2018 rolaram muitos altos e baixos, dessa maneira como a vida em geral flui, num pêndulo de emoções ininterruptas. Mas um acontecimento que me marcou, e emocionou, foi a chegada da andorinha em nossas vidas. 

.terça-feira

nesta tarde o Vinicius tinha ido à serralheria encomendar uns moirões para instalar na parreira do jardim. voltando da loja avistou uma andorinha minúscula dentro de uma poça d'água, na calçada. o dia estava chuvoso e ele decidiu trazer a bichinha para casa com esperança de que pudéssemos cuidar dela. 

assim que a vi liguei prum veterinário nosso amigo, que disse pra tentar alimentá-la com minhoca e papa de fubá. coloquei uma meia de lã numa cumbuca e isso passou a ser seu ninho, que tremia, piava baixo e quase nem abria o bico. 

fizemos a papinha num potinho de prata e colocamos água ao lado. eu segurava o corpinho dela com o maior cuidado e fazia com que seu bico tocasse na papinha. depois ficava observando se ela mastigava alguma coisa, às vezes parecia que sim – mas comida de passarinha é tão minúscula, ou pelo menos a que ela conseguia engolir, que parecia que o potinho de prata iria alimentá-la por um ano. isso se ela comesse alguma coisa.


.quarta-feira

quando acordamos a andorinha estava no meio da sala, parecia se recusar a ficar no "ninho" e gostava de olhar do lado de fora da janela, na certa na esperança de avistar sua mãe. comecei a pegá-la na mão e fazer carinhos na cabecinha, até hoje não sei se lhe soava afetivo ou ameaçador, confesso que não entendo nada de pássaros.

era lindo quando ela abria as asas e dava uma corridinha, asas tão bem feitas neste movimento de fechar e abrir. a passarinha me encantava cada dia mais, e a gente notava melhoras, a perninha que antes mancava já estava andando direitinho. levei ela no quintal para pegar um sol, mas ela ficava um pouco inquieta, não sei se se sentia presa ou se queria desesperadamente buscar sua família. na grama, não ficava parada, quase se meteu debaixo do pé de maracujá, e fez cocô por toda parte. 

Vinicius catou minhocas e tentou dar pra ela, que não comeu. então ele amassou e misturou na papinha de fubá. tentamos alimentá-la com uma seringa mas o bico era tão pequeno que mal se abria. na hora de dormir, tentei deixá-la no ninho para que fosse um pouco mais quentinho, mas ela logo saía, como antes. 




.quinta-feira

notei que a coisa com que mais me ocupava era a andorinha, a todo momento eu ia até a sala ver como ela estava, tentava dar água e papinha.

o Vinicius achou bom colocá-la num pauzinho, para ela treinar empoleirar-se. ficou muito fofa em cima da varinha de madeira, toda imponente. ao mesmo tempo ela seguia dando uma tremidas e quando eu ia dar comida ela fechava os olhos e ficava paralisada. ficamos preocupados mas seguimos na tentativa de alimentá-la e dar carinho. 

no fim da tarde ele me chamou e disse, Lila, acho que a andorinha morreu. e eu vi aquele corpinho, sem vida. foi um momento muito difícil, senti que a passarinha morava no meu coração, e chorei um choro como há muitos anos não chorava.



terça-feira, 13 de novembro de 2018

Parecia civilização – era só ilusão?


é... parecia que a gente era, mas nem tínhamos nos constituído.

sumiram a música, a alegria e o carnaval. ficaram as lágrimas.

ainda é legítimo ter escravos, rejeitar o diferente, ter vergonha de ser pobre?

por que a terra tá concentrada, cadê a reforma agrária?

2019 ainda nem começou, mas

criminosas são as famílias que há 20 anos cultivam a terra, sem veneno, criam cooperativa, vivem fora da periferia, agitam a economia de uma cidade em decadência e querem ser felizes sem exploração.

criminosas são as mulheres que não têm nada e se reúnem em construções abandonadas para lutar por um teto. ali elas cozinham com a solidariedade no coração para seus irmãos e irmãs, fundam comunidades como quilombos.

e ainda hoje os quilombos são violentados.

é isso mesmo que a gente quer? são eles os criminosos, "terroristas"?

este não será um país bom para ninguém, se não acreditarmos que pode ser diferente.

#EuApoiooQuilombo
#SalveQuilombo




domingo, 8 de outubro de 2017

a dor e a cor do veneno

aqui na casa de baixo tá morando uma família humilde e simpática, mais bonito é ver que são dos poucos negros aqui na cidade, pelo menos no meu bairro. certeza que na periferia é diferente. mora aqui a matriarca e os filhos sempre vêm visitar, é belo o jeito como se deslocam descontraídos, às vezes via o filho sentado no chão quase deitado, como num divã, bem relaxado como os indianos, ao invés de manter o corpo tenso e ereto como manda algum tipo de bom comportamento.

moram aqui há alguns meses mas nunca se estabeleceu uma troca mais profunda entre nós, poucas vezes fui lá colher manjericão, pois antes usávamos o quintal como extensão pro café, pra couve e os pés de manjericão.


hoje ouvi uns choros, vindos de lá, que às vezes pareciam risos, um tipo de choro forte e descontrolado. olhei de soslaio e notei que algo grave acontecera, senti fundo o pesar daquela casa vizinha, movimento de entra e sai, cabeças baixas de gente que não se conforma. logo avistei a senhora, desconsolada, cercada pelas filhas, e notei que o filho não estava. 

ele tinha 33  e andava reclamando de dor no peito, das coisas que sentia depois de ter trabalhado na plantação de batata. faleceu por problemas cardíacos, que é uma das consequências de um dos agrotóxicos mais utilizados no Brasil, o glifosato. um rapaz da minha idade, mal atendido pela saúde pública, e quiçá afetado também pela falta de informação.  

mal conheço as vizinhas mas foi duro presenciar a dor da impermanência, e de uma injustiça social que é acionada na vida e na morte. por que será que a gente segue ignorando um problema tão grande e que mata tanto? será porque quem planta e morre com facilidade é pobre, simples assim? será pel
a falta de trabalho, que faz com que as pessoas se sujeitem a situações degradantes? ou, mais do que tudo, à estupidez da lógica do agronegócio, que vê lucro e não vê gente? 

o século XXI taí pronto pra mudanças de paradigmas, por gentileza.