curioso viver uma vida dedicada a um trabalho de 40 horas, a rotina gera uma gangorra de sentimentos.
me sinto bastante desimportante, mas me contenho porque dessa maneira consideraria toda a classe trabalhadora dessa forma. por outro lado, fico satisfeita exatamente por fazer parte dessa classe que goza do sábado e do domingo como nenhum herdeiro seria capaz. entendo mais do que nunca o significa "sextou!"
viver sozinha é mais uma questão paradoxal.
tenho consciência de que sinto saudade da família e dos amigos, mas não consigo assumir isso de uma maneira concreta. talvez pelo pragmatismo excessivo, tenha deixado de lado até o meu afeto pelos cachorros e gatos que ficaram no sul, como se a vida fosse simplesmente seguir em frente sem deixar com que dramas excessivos sejam criados nem causem um desgaste emocional extra. praticidades dessa personalidade que me foi forjada.
por outro lado, o prazer de estar sozinha e viver uma rotina sem negociação é um deleite. uma espécie de estranho deleite, já que me faltam afetos, mas me divirto com pequenas conquistas, como estar suficientemente disposta e até animada para fazer minha própria comida e congelar parte dela para os momentos de preguiça, atitude essencial de mora sozinha e sabe que virão dias de ciclo menstrual ou retornos exaustivos de idas a campo.
na última quarta fizemos uma ronda noturna, ainda que eu estivesse sem impressora, o que me impediria de elaborar qualquer auto. a presença de luzes fortes nas viaturas e o sacolejo dos carros nos ramais poeirentos e esburacados me fizeram passar o dia seguinte, uma merecida folga, completamente inútil e entregue à enxaqueca e ao mal-estar.
de repente eu me vejo trabalhando com a Polícia Militar, abordando cidadãos e me perguntando onde é que fui me meter. passei a vida temendo a polícia e odiando uma política de extermínio horrorosa, mas agora preciso defender a letra da lei, ainda que seja a partir de um poder administrativo voltado à proteção ambiental.
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