sexta-feira, 15 de maio de 2020

Yoga, Sāṅkhya e o perspectivismo ameríndio

Nesta quarentena resolvi ler aquele tijolo do Mircea Eliade.
Ao me deparar com a afirmação de que as doutrinas tradicionais indianas postulam que toda a matéria tenha uma só origem (prakrti) mas que o espírito (purusa) seria múltiplo, me lembrei logo do olhar indígena difundido por Viveiros de Castro, o perspectivismo ameríndio, um olhar que reúne todos os seres como humanos.

Talvez eu esteja viajando na #quarentena, mas transcrevo trechos que para mim reforçam o paralelo explicitado acima.
Aqui a assertiva de Eliade quanto às idiossincrasias do Sāṅkhya e Yoga, que os diferem do Vedanta: "O paradoxo é evidente: esta doutrina reduz a infinita variedade de fenômenos a um só princípio: a matéria (prakrti). Faz derivar de uma só raiz o universo físico, a vida e a consciência, e, no entanto, postula a pluralidade dos espíritos, ainda que por sua natureza estes sejam essencialmente idênticos. Ela une assim o que parecia tão diferente – o físico, o vital e o mental – e isola aquilo que, sobretudo na Índia, parece tão único e universal: o espírito." (Eliade)

Em seguida, pode-se trocar a palavra humanidade por espírito, e encontrar aí similaridades com a antiga tradição Sāṅkhya. "As concepções ameríndias que sustentam o conceito de perspectivismo apontam, então, para a irredutibilidade dos seus contextos a uma distinção ontológica entre natureza e cultura. (...) Em outros termos, entre os ameríndios a natureza não existe em si mesma como uma esfera “objetiva”, e sim como efeito de um ponto de vista. (...) A unidade da alma e a multiplicidade dos corpos para as quais apontam essas ontologias levariam não ao multiculturalismo moderno-ocidental, mas a um multinaturalismo ameríndio, em que a cultura é o fundo comum de uma multiplicidade de naturezas que se desdobram dos corpos. Assim, a condição compartilhada por humanos e animais não é a animalidade (como para a ciência moderna, segundo a qual os humanos pertencem ao reino animal), mas a humanidade." (Lucas Maciel)

Este breve lampejo bem que poderia gerar um estudo sobre paralelos e paradoxos entre eles.

#sankhya #yoga #vedanta #lifeofyoga #vidadeyoga




quinta-feira, 12 de março de 2020

Aprendizados da Mãe Índia

Em nossa estadia na Índia encontrei algo muito forte que desconhecia em mim: a devoção. Entendi que a entrega a essa força superior e sutil pode não ser explicada racionalmente, mas é profundamente sentida pelo coração.

Durante o retiro de Natal do Sivananda Ashram, do qual tivemos a honra de participar, muito se falou sobre o ensinamento do Vedanta, que compreende que todos somos um: “Tudo isto é verdadeiramente Brahman (realidade (Sat), consciência (Cit) e beatitude (Ānanda)." Nas palestras inspiradoras dos swamis, eles relembravam o quão próxima está a palavra de Cristo daquela dos santos hindus. E nós vimos como Cristo é abraçado por uma tradição que integra os mais variados mestres e valida diversas experiências no caminho da iluminação.



                                        Altar da Divine Life Society (acima) e um templo de rua em Goa (abaixo)

Fui então buscar O Sermão da Montanha segundo o Vedanta, comentado por Swami Prabhavananda, com trechos que revelam sua profundidade. “No Evangelho segundo São Lucas, lemos: “O reino de Deus não tem aparência ostensiva; nem se poderá dizer: ei-lo aqui ou ei-lo ali! Porque o reino de Deus está dentro de vós.” Numa vida de Yoga é exatamente o que buscamos, conectar-nos com nossa essência serena e plena, que nos define. Como o lembrete do apóstolo Paulo aos Coríntios: “Ignorais acaso que sois o templo de Deus, e que o Espírito de Deus habita em vós?“

                                         Swami Yogaswarupanandaji, presidente da Divine Life Society

E no hinduismo é o véu de Maya, da ilusão, o que nos afasta de enxergar a realidade como ela é, é como se a nossa luz fosse encoberta pelas trevas, e tivesse então que ser re-descoberta, apesar de ter estado sempre dentro de nós, brilhando. E o sermão da montanha prossegue: “E a luz brilhou nas trevas, e as trevas não a compreenderam”. A luz de Deus brilha, mas o véu de nossa ignorância esconde essa luz. Esta ignorância é uma experiência direta e imediata. Só pode ser removida por outra experiência direta e imediata – a realização de Deus. A diferença entre a ignorância e a realização de Deus, segundo Buda, é como a que existe entre o sono e o despertar”.



Harih Om. Tat Sat.

#vedanta #cristo #vidadeyoga #autoconhecimento #yogamg #sivananda #divinelifesociety #yoga #yogaemcaldas #caldasmg #pocosdecaldas #iluminacao #despertardaconsciência

segunda-feira, 21 de outubro de 2019

Eu mesma



Lila, lindo nome do qual já desgostei

Almendra, da vó Laura dos confins de Portugal (outros o veem espanhol)
Praça, da vó Talitha e de um povo mouro quiçá rebatizado
Carvalho, não uso e já nem me lembro, família de homens que me des-representa
Sou das avós, das mães, das matriarcas e de seu sábio legado
Lana escolheu meu nome; Gustavo queria Rosaura
Lila é passatempo divino, brincadeira de Krsna
Exibe abertamente meu aprendizado: a leveza de voltar à infância
Olhar o mundo com espanto e redescobri-lo em sua beleza
Foi uma intuição de minha mãe que descortinou o dharma de minha vida
Tirar o peso de cima e acreditar num presente que já não é passado
Florescendo lila

terça-feira, 18 de junho de 2019

A esfinge em mim




o boi estava no brejo, mas havia sinais de que sairia.
a águia ansiosa, bem que tentava meditar, mas era tanta a missão que cumpria.
e ele, o leão, no fundo tinha aquele ranço de ser bonzinho – de nada negativo se achava no direito.

a flor desabrochava, tímida e descontraída, dona de paradoxos. com as marcas e padrões que pareciam lhe seguir, ela de vez em quando dava um olé e vencia, noutras vezes era tomada e repetia a mesma trilha, mesma ladainha de pessoinha pequena, apertada, feinha.

consciente de sua relativa grandeza, nem podia facilmente expressá-la, não havia quem lhe desse permissão. ela mesma é que tinha que conquistar, fazer-se centro de seu mundo sem medo do egoísmo, do convencimento de se achar importante demais.

passo a passo, se regalava a siesta, a preguiça, a gula e a rede.
se dava um banho sulfuroso e almejava-se completa não importa os que falam, os que julgam.

queria ser amada apesar disso, dela mesma, desse jeito: confusa e desabrochando de boniteza.

e a serpente se eleva, devagarinho.

terça-feira, 29 de janeiro de 2019

Brasil à venda, por muito pouco


Não é só em Brumadinho, no Brasil tá liberada a destruição, infelizmente.

Nós vivenciamos algo parecido em Caldas:

licenças ambientais sem análise técnica liberadas em ambiente que lembra a Rússia burocrática, onde ninguém pode questionar.

em seguida nove cidadãos são processados, cada um recebendo seis processos, por tentarem se opor à aprovação da licença. tentativa de intimidar mesmo, que ideia é essa de defender a natureza?

e a maioria da cidade de cabeça baixa para o "desenvolvimento" que chega e paga salário.

paga até acontecer tragédia, acabar a água e os empregos. capital que vale muito, vida que vale nada. até quando?

sábado, 22 de dezembro de 2018

🖤 Duas dicas para a saúde das mulheres

 Um poderoso chá para a TPM - tensão pré-menstrual:

🌱
 Alfacava (também conhecida como elixir-paregórico)
🍃 Melissa officinalis (a original, um arbusto de galho fino e folha mentolada)
🌾 Mil-folhas (ou novalgina natural)

Este chá é ideal para o ciclo lunar das mulheres: a melissa relaxa, a mil-folhas é analgésica e a alfavaca combate as cólicas.

Aprendi isso com um sábio mestre das ervas de Floripa, durante o Encontro de Agricultura Urbana em 2016. Um senhor incrível que cultiva todas as plantas possíveis e dá aula dos muitos saberes populares na universidade. Outra coisa que ele disse é que sempre devemos cultivar em casa a moringa e a ora-pro-nobis, plantas utilíssimas para a saúde e com elevado teor de proteínas.


🌵  Babosa - Aloe Vera

Outra coisa boa é consumir aloe vera, mas fui advertida a deixar escorrer aquela gosma amarela, a aloína, antes de utilizar. Depois você pode cortar ao meio, na longitudinal, e colocar num vaso de água por uns minutos. Daí ao beber a água vai sentir aquele gostinho de aloe.

Muito se fala das maravilhas da babosa, estudando Ayurveda descobri que seu gel é excelente para equilibrar distúrbios menstruais leves. Como a cada ciclo tenho enxaquecas resolvi começar uma rotina dedicada e aliviar o problema.
Cada tratamento depende do dosha (tipo psicofísico) predominante, faça um teste online e comece a se observar. Sempre vale correr atrás de se conhecer melhor! 🌹



Uma andorinha faz sim, verão

Neste ano de 2018 rolaram muitos altos e baixos, dessa maneira como a vida em geral flui, num pêndulo de emoções ininterruptas. Mas um acontecimento que me marcou, e emocionou, foi a chegada da andorinha em nossas vidas. 

.terça-feira

nesta tarde o Vinicius tinha ido à serralheria encomendar uns moirões para instalar na parreira do jardim. voltando da loja avistou uma andorinha minúscula dentro de uma poça d'água, na calçada. o dia estava chuvoso e ele decidiu trazer a bichinha para casa com esperança de que pudéssemos cuidar dela. 

assim que a vi liguei prum veterinário nosso amigo, que disse pra tentar alimentá-la com minhoca e papa de fubá. coloquei uma meia de lã numa cumbuca e isso passou a ser seu ninho, que tremia, piava baixo e quase nem abria o bico. 

fizemos a papinha num potinho de prata e colocamos água ao lado. eu segurava o corpinho dela com o maior cuidado e fazia com que seu bico tocasse na papinha. depois ficava observando se ela mastigava alguma coisa, às vezes parecia que sim – mas comida de passarinha é tão minúscula, ou pelo menos a que ela conseguia engolir, que parecia que o potinho de prata iria alimentá-la por um ano. isso se ela comesse alguma coisa.


.quarta-feira

quando acordamos a andorinha estava no meio da sala, parecia se recusar a ficar no "ninho" e gostava de olhar do lado de fora da janela, na certa na esperança de avistar sua mãe. comecei a pegá-la na mão e fazer carinhos na cabecinha, até hoje não sei se lhe soava afetivo ou ameaçador, confesso que não entendo nada de pássaros.

era lindo quando ela abria as asas e dava uma corridinha, asas tão bem feitas neste movimento de fechar e abrir. a passarinha me encantava cada dia mais, e a gente notava melhoras, a perninha que antes mancava já estava andando direitinho. levei ela no quintal para pegar um sol, mas ela ficava um pouco inquieta, não sei se se sentia presa ou se queria desesperadamente buscar sua família. na grama, não ficava parada, quase se meteu debaixo do pé de maracujá, e fez cocô por toda parte. 

Vinicius catou minhocas e tentou dar pra ela, que não comeu. então ele amassou e misturou na papinha de fubá. tentamos alimentá-la com uma seringa mas o bico era tão pequeno que mal se abria. na hora de dormir, tentei deixá-la no ninho para que fosse um pouco mais quentinho, mas ela logo saía, como antes. 




.quinta-feira

notei que a coisa com que mais me ocupava era a andorinha, a todo momento eu ia até a sala ver como ela estava, tentava dar água e papinha.

o Vinicius achou bom colocá-la num pauzinho, para ela treinar empoleirar-se. ficou muito fofa em cima da varinha de madeira, toda imponente. ao mesmo tempo ela seguia dando uma tremidas e quando eu ia dar comida ela fechava os olhos e ficava paralisada. ficamos preocupados mas seguimos na tentativa de alimentá-la e dar carinho. 

no fim da tarde ele me chamou e disse, Lila, acho que a andorinha morreu. e eu vi aquele corpinho, sem vida. foi um momento muito difícil, senti que a passarinha morava no meu coração, e chorei um choro como há muitos anos não chorava.