sábado, 11 de julho de 2026

os óculos escuros quebrados, sinto um vazio

me acompanharam por anos a perder de vista.


comprados no largo do machado de uma senhora que colecionava objetos de leilão e alugava pro audiovisual. as lentes âmbar me deixavam confortável tanto ao ar livre quanto em espaços internos.

sem eles, me sinto nua e nem sei em que ano foi, nunca troquei as lentes. cerca de 15 anos, que loucura uma coisa te acompanhar assim por tanto tempo, usava esses óculos escuros tão frequentemente que nem sei ainda como viver sem.

nunca um objeto testemunhou tanto da minha vida, desde a encarnação carioca, passando pela mineira e chegando à acriana. 



o regalo de um happy hour na sexta-feira para a classe trabalhadora

curioso viver uma vida dedicada a um trabalho de 40 horas, a rotina gera uma gangorra de sentimentos.

me sinto bastante desimportante, mas me contenho porque dessa maneira consideraria toda a classe trabalhadora dessa forma. por outro lado, fico satisfeita exatamente por fazer parte dessa classe que goza do sábado e do domingo como nenhum herdeiro seria capaz. entendo mais do que nunca o que significa "sextou!"

viver sozinha é mais uma questão paradoxal. 

tenho consciência de que sinto saudade da família e dos amigos, mas não consigo assumir isso de uma maneira concreta. talvez pelo pragmatismo excessivo, tenha deixado de lado até o meu afeto pelos cachorros e gatos que ficaram no sul, como se a vida fosse simplesmente seguir em frente sem deixar com que dramas excessivos sejam criados nem causem um desgaste emocional extra. praticidades dessa personalidade que me foi forjada.

por outro lado, o prazer de estar sozinha e viver uma rotina sem negociação é um deleite. uma espécie de estranho deleite, já que me faltam afetos, mas me divirto com pequenas conquistas, como estar suficientemente disposta e até animada para fazer minha própria comida e congelar parte dela para os momentos de preguiça, atitude essencial de quem mora sozinha e sabe que virão dias de ciclo menstrual ou retornos exaustivos das idas a campo.

na última quarta fizemos uma ronda noturna, ainda que eu estivesse sem impressora, o que me impediria de elaborar qualquer auto. a presença de luzes fortes nas viaturas e o sacolejo dos carros nos ramais poeirentos e esburacados me fizeram passar o dia seguinte, uma merecida folga, completamente inútil e entregue à enxaqueca e ao mal-estar.

de repente eu me vejo trabalhando com a Polícia Militar, abordando cidadãos e me perguntando onde é que fui me meter. passei a vida temendo a polícia e odiando uma política de extermínio horrorosa, mas agora preciso defender a letra da lei, ainda que seja a partir de um poder administrativo voltado à proteção ambiental.

 



 

terça-feira, 26 de maio de 2026

6 meses de Alto Acre

objetos em ordem cronológica

1 a cama na qual durmo e me recosto para escrever e ver filmes, ontem um iraniano lindo que retratava a opressão familiar contra as mulheres e hoje um documentário que mostra a opressão russa atual, "escondida" do mundo. ou seja, o mundo é uma briga de jagunço como a que retratou Guimarães Rosa, e como bem leu o papai.

2 a geladeira que salvou a minha vida, embora eu nunca tenha reconhecido a importância desse objeto assim como agora o percebo, guarda todas as comidas, geladas ou não, e as mantêm relativamente a salvo do clima quente e úmido do Alto Acre;

3 a airfryer com a qual começo a me adaptar, só deveria ser autolimpante, me trabalho para lavar sem reclamar, só agradecer. me tornei uma daquelas pessoas exaustas dessa sociedade do cansaço, que ao invés de preparar o seu próprio leite de côco caseiro coloca um pão de queijo congelado na airfryer dando graças a deus que exista.

4 uma panela de arroz ganhada de amigos que sempre têm mil ideias e depois desistem, acumulando objetos desnecessários que em algum momento serão novamente úteis em casas alheias. e como as opiniões mudam, eu mesma não gostava dessa panela quando a tínhamos em casa, ficou para o vinicius de herança. já essa pequerrucha eu amo só pelo fato de que o cateto fica parecendo japonês e eu não preciso mais vigiar neuroticamente o fogareiro que queima rapidamente qualquer substância caso me distraia. e antes tinha a questão da presença do fogo, dos aprendizados do ayurveda. agora o que tá tendo é praticidade e conforto.

5 a panela de pressão elétrica que um amigo fez questão de me avisar estar disponível de um casal que vai se mudar e vendia a bom preço, ela em breve chegará.

dois não objetos concretos de tão vivos

6 a Barquinha roubou o meu coração exatamente 6 meses depois de colocar os pés no Acre, parecia esperar o momento certo e eu só posso agradecer por sentir esse amor da mesma forma como o senti no Ashram de Sri Sarada Devi, em Pune, em 2019.

7 um imenso alívio perceber que a suposta crise de labirintite é na verdade um uso excessivo de cbd, que ainda sim é mínimo, mas o mínimo para este corpo é máximo e gera muitas consequências. o fato é que depois de horas no posto de saúde eu pesquisei e sim, pessoas sensíveis podem sentir vertigem ao consumirem cbd, e logo fiz a conexão de algum excesso de vata que vem com essa substância que paradoxalmente relaxa, enquanto o vata é a mil por hora.

domingo, 10 de maio de 2026

caos de quatro meses

estou aqui há 3 meses e as moças do ICMBio me chamaram pra sair e me incluiram no grupinho delas. fiquei animada com aquela sensação de pessoas da mesma tribo se encontrando.

ET nesse tempo e espaço, percebo que a minha configuração estética se parece mais com as pessoas do filme norueguês Valor sentimental do que com meus co-habitantes de Epitaciolândia, fisicamente tão próximos. 

procuro me manter flexível e aberta para o novo, mas há coisas que me incomodam e não se movem, como uma sensação atrasada de valores morais, machistas e preconceituosos, que permeia a sociedade local. 

talvez eu sempre tenha sido esquisita, mas aqui o adjetivo me persegue desde o que e como me alimento até como me locomovo e como penso politicamente. isso implica estar sempre neste lugar deslocado de forasteira, excêntrica e chocante. aos poucos percebo que isso cansa, desgasta não estar no seu lugar e sentir não ser compreendida o tempo todo.

enquanto isso vou me preparando para me tornar uma espécie de policial ambiental. me pergunto se estou batendo bem, que sentido tem nisso tudo, mas encontro algum. é preciso barrar a destruição da floresta, e se é esse o caminho, que seja, então, trilhado.

neste começo de curso ead pego chuva, vem uma gripe intensa e até tento cancelar o voo pro sudeste. já não dá. a viagem é tão cansativa que prenuncia os anos vindouros, entendo que é preciso tempo para descansar e é preciso menos deslocamentos, é preciso estar mais tempo no mesmo lugar e construir rotinas. quando volto pro acre retomo a vida na casa suíte-varanda e encontro alívio e prazer na rotina.

ainda que sempre tenha sido uma jovem-senhora, aos poucos me torno uma senhora-senhora. prefiro dormir cedo e acordar cedo com vigor, praticar yoga e sair com energia e alegria para o dia. como se isso valesse mais do que qualquer date, e já não bebo nem o pouco a que antes me dispunha.

o resumo é que foi até bom o sudeste mas é puxado demais: são paulo, penedo, santo antonio, penedo, são paulo. cancelo a ida ao rio e o encontro com tantas pessoas queridas. é assim a vida da trabalhadora aos 42. não reclamo pois vivi até aqui sem esse compromisso, mas também sem o salário.

quando volto pro acre já me sinto em casa no meu quarto-chalé, tiro a airfryer da caixa e pela primeira vez compro uma lasanha congelada, cheia de algo que forja ser um queijo e com muita noz moscada. esquento e me sinto feliz de ter a chance de comer uma comida congelada e comprar qualquer coisa que eu queira com o meu salário. 

aos poucos vou entendendo o que significa ganhar melhor do que antes, significa o acesso a coisas sem ter que me preocupar com quanto será a conta. em rio branco descobri um mercado muito bom que inclusive serve refeições. lá eu compro coalhada seca, pão ciabatta, biscoito de canela importado, queijo meia cura e outras regalias mais. 

comprei vários cappuccinos e já me doeu o ouvido, voltei a tomar cevada. apesar de adaptada neste quarto estilo acampada tem horas que cansa a falta de espaço, a cabeça tem que sempre planejar os movimentos. se vou cozinhar preciso pegar cada coisa na geladeira, usar uma bandeja e fazer caber tudo na pequena mesa da varanda. em alguns momentos levantar para lavar a mão que é coisa que se faz o tempo todo numa cozinha comum, você suja a mão de sal, de tomate, de azeite... 

as coisas podem parecer difíceis mas sempre tem o lado bom. estar sozinha comigo mesma é também ter a oportunidade de fazer apenas o que eu quero, de não estar submetida às obrigações sociais, familiares ou pressões dos amigos. às vezes eu me sinto a pessoa mais antissocial do mundo por ver essas vantagens em estar isolada. percebo que tem uma coisa curiosa, que eu sempre me coloquei disponível para o que os outros desejavam fazer ou para o que parecia fazer sentido dedicar o meu tempo, mas aqui não tem isso. o meu tempo livre é dedicado apenas ao que me apatece e também ao que sou obrigada, como lavar louça, lavar calcinhas, varrer o quarto, passar pano com álcool na mesa que chamo de cozinha, enfim. fazer uma comida no domingo, guardar em potes de inox que trouxemos da Índia e que por sorte ficaram como herança minha. e ainda, não fazer absolutamente nada e apenas escutar os passarinhos.

 

domingo, 1 de março de 2026

ineditismos

um encontro numa festa, parecia que ele dava em cima dela. disse que podia buscá-la no aeroporto quando chegasse de viagem. a conversa fluía bem e cheia de emojis e cuidados, animou a moça.

lancharam hamburger e noutro dia jantaram espeto, que é uma tradição local, a carne de vaca sempre presente nas mesas dos lares e comércios.  a impressão que tinha dele era de alguém titubeante, que se aproximava e se afastava numa espécie de dança confusa. sozinha e distante, a moça aceitou o bailado.

meia dúzia de vezes, ela enfim pergunta qual é a dele. mais uma vez nebuloso, diz estar avoado com problemas familiares e que a amizade dela era boa.

o mundo é assim, mira-se em algum que pode não calhar. não entende porque insiste já que é um caótico rapaz. nem tudo tem explicação. talvez o medo de rejeição a faça tentar ser amada, querida no espaço e local em que foi negada, insistir que é possível. 

ela se afasta, e em algum momento se reaproxima. ele investe mais pesado, sempre presente, atento, curioso e interessado. ela pensa que algo mudou, se equivoca.

fica pensando em quantos mundos existem, que situação curiosa e intrigante pela qual não havia passado antes. sempre há ineditismos prestes a eclodir em nossas vidas pacatas e mornas. 

 

quinta-feira, 22 de janeiro de 2026

diário II

pressinto os desafios de uma sudestina natureba para se alimentar em um contexto completamente distinto e ainda mais inóspito, pros seus termos. desde o início pude perceber que ou cozinho diariamente ou como carne, gordura e frituras em quantidades bem maiores e frequentes do que estava acostumada.

uma pergunta que me surge é: como as pessoas estão bem de saúde consumindo frituras diariamente? o pollo é refeição frequente, do lado de lá e de cá da fronteira, pollo significa frango frito, literalmente. do lado brasileiro o tempero é maravilhoso, coentro e pimenta de cheiro, mas também muita gordura. na primeira semana tenho diarréia por vários dias e preciso almoçar pão com pepino.
a chegada nesse novo mundo me fez habitar uma suíte na Pousada Laurian, cujas mangueiras e frutíferas contrastavam, na minha perspectiva, com a falta de organização na gestão de resíduos, tinha lixo pelo quintal e na lixeira misturava-se tudo, além de um alto consumo de isopor e plástico, em forma de sacolas, marmitas e potes de comida de uso único.
no trabalho, tem sido difícil construir uma relação com meus colegas e deixar de lado muita coisa que me incomodava nas práticas da unidade, uma delas era o lixo, todo misturado, não havia nem lixo orgânico e a falta de política de resíduos somada ao uso excessivo de embalagens plásticas e de isopor me causava profundo incômodo, foi o que mais me desafiou nessa chegada. a cada almoço, um monte de marmitas de isopor e o lixo já estava lotado novamente, de plástico, isopor e restos de comida. 
acordo cedo no começo com facilidade para ir trabalhar, caminho pela
BR 317, a do Pacífico, sem calçada, pela lama lateral, porque se eu tentar não sujar meu pé fico realmente muito na beira da estrada e se vem uma carreta pode me atropelar, então o jeito é enfrentar a lama que quando chove é bem melecada, mas quando tá sol fica mais firminha e nem gruda no sapato. isso foi rolando por um mês e meio, até a chegada da bicicleta que demorou bastante até aqui. com ela eu passei a pedalar pela rodovia, chegava mais rápido e me protegia da lama nos sapatos. e continuo nessa, só me dá preguiça de ir pra bolívia porque é perto mas é longe.

adentrando o mundo acriano na fronteira de perfil reacionário e agrotech, me torno dona lila, o que no começo me incomoda porque parece uma indicação da velhice nos cabelos grisalhos, mas no fim é isso mesmo. talvez me falte entender que virei uma senhora, ainda que eu considere esse tratamento a expressão de uma visão ultrapassada da vida, tanto de hierarquias sem sentido quanto de um padrão estético muito pouco consciente das conquistas feministas e progressistas vigentes no sudeste.


um colega toma 5 banhos por dia ou mais, um de manhã antes do trabalho, um em casa antes do almoço e outro antes de voltar para o trabalho, ou seja dois banhos em menos de duas horas. toma outro quando chega em casa do trabalho e mais um ou dois até dormir. tento ser honesta e conto pra ele que eu tomo apenas dois, um de manhã e um na volta pra casa e que isso já é mais do que eu sempre tomei na minha vida. 


segunda-feira, 19 de janeiro de 2026

diário de chegada I

não sei o que me deu, não tinha a mínima ideia de que seria aprovada nesta prova.
escolhi o Acre sem nunca ter nem sonhado conhecer. 

saio da montanha de Santo Antônio do Alto Rio Grande, do frio e do silêncio. passo por Penedo e me despeço da família mais próxima. de lá, São Paulo, onde passamos os últimos dias.  

e eis que em 16 de outubro saio da Santa Cecília de madrugada, pego as malas na Liberdade e já com aquela dor de cabeça do cansaço acumulado sou levada pra Guarulhos pelo Leo querido amigo amado, estilista da montanha. só sei que despachar mala em tempos de autoatendimento é simplesmente guerra, você que lute para conseguir chegar no portão no tempo certo, estressada ao realizar a maior mudança da sua vida. 

4 horas depois chego naquele pequeno aeroporto abafado de rio branco e encontro um uber para ir até a rodoviária, compartilhado, como todo o transporte daqui. cada vez mais exausta percebo como fui irresponsável de dormir mal logo nos 3 dias que antecedem enfrentar tudo isso, mas queria muito encontrar aquele cara interessante e era a única chance, a única chance em tanto tempo a perder de vista... 

o fato é que, já faminta, na rodoviária fico parada com as malas, das quais preciso cuidar enquanto como castanhas. peço a alguém pra olhar a bagagem enquanto corro até a lanchonete e não encontro nada que me apeteça. uma fresca natureba que evitava frituras e ultraprocessados aos poucos percebe que a vida vai mudar. 

um mês depois já virei carnívora mesmo, sinto vontade de carne até de noite, até porque a carne do Acre é a melhor do país. mas voltando ao assunto, da rodoviária entro no carro com 4 homens e me colocam no meio, apertada entre dois sujeitos que me fazem sentir constrangida. cubro a barriga com a jaqueta e me embolo na echarpe tentando me proteger do jato de ar condicionado que me acerta. o que passa na minha cabeça é como eu me desafio a vivenciar certas situações das quais a maioria das pessoas não ousaria se aproximar. 

estou num carro indo para fins do Brasil, sem a mínima ideia de como será e sem conhecer ninguém. e aí o carro quebra, ou fica sem gasolina. resolvo comprar uma panqueca de carne numa birosca qualquer, onde peço para ir ao banheiro e me choca a situação precária. foi difícil mas encaro a panqueca depois do banheiro, compro um litro de garapa e tento convencer meus colegas de veículo a tomarem comigo, um deles aceita e o carro torna a funcionar. fico carregando aquela garrafa melada de caldo de cana enquanto tento controlar a jaqueta e a echarpe.  chegamos afinal e saio do gelo do carro para algo que parece uma sauna, a pousada - que por sorte tem piscina e mangueiras -, onde me instalo na pequena suíte com varanda. me estranha o fato dos pedaços de plástico e restos de lixo por todo o canto, no quintal, na rua. lixo é coisa fácil de se encontrar, o que você esperava da região amazônica? encontro gado, lixo e estradas sem radar onde geral trafega em alta velocidade, ainda que de forma razoavelmente segura. 

essa minha cidade na verdade são 3 conurbadas, epitaciolandia, brasileia e cobija, as pessoas andam de mototaxi e não tem transporte público, mas muita gente pedala. no primeiro sábado fui ver uns apartamentos horríveis destinados a estudantes, que parecem não merecer mesmo nada de bom, aparentemente. percebi que minha casa vai ser a pousada mesmo.

depois de visitar os tais imóveis, atravessei a pé pra cobija e pela primeira vez em solo boliviano arrisquei um portunhol pro guarda da fronteira: puedo pasar? e ele: pasa, pasa! andei pesarosa até uma praça bonita e deserta, era véspera da eleição nacional. essa parte bem pertinho atrai brasileiros com suas lojas de quinquilharias de toda a américa do sul. comprei cerejas e pepinillos do chile, além de ostras enlatadas e fiquei contente. 

subi a rua até o mercado local rodeado de peluquerias e que me lembra a india: povos tradicionais com sua rica cultura contrastam com o esgoto correndo na lateral da rua. ali encontrei ají dulce, ou pimenta de cheiro, coisa que amava no ceará. o alto acre foi todo colonizado por soldados da borracha e a cultura nordestina fundou este lugar, muito diferente de outras regiões amazônicas. aos poucos vou perceber o quanto de nordeste tá presente aqui, nos hábitos culinários e nos modos de ser e existir. (como o nordeste é o melhor do brasil em 3 meses já me sinto adaptada e não tenho pressa em me mudar do acre, acho o sudeste muito longe e me arrependo de ter comprado uma passagem pra passear por lá.)

ainda confusa sobre o que necessito, compro um guarda-chuva roxo (que quase nunca usei) numa loja e a criança mega simpática me fez sentir animada só pelo fato de que entendia o meu espanhol e achava graça. em seguida um gesto arriscado (que só percebi depois de uma diarréia) foi pedir que um mototaxi me levasse até Las Palmas, restaurante indicado pelo TripAdvisor e o único que tive coragem de provar, já que todos os colegas me disseram para não comer na Bolivia (na verdade bolivia aqui é sinônimo de cobija, já cochabamba tem comidas incriveis e é a capital das flores e da gastornomia boliviana). 

peço uma paceña, que é a cerveja local, e gosto do sabor. uma garrafa grande, a única que havia. logo o dono do restaurante me diz pra deixar a garrafa na cadeira porque era véspera de eleição e proibia-se a venda de bebida, mas alguém se esqueceu de me avisar e agora eu já estava ali bebendo.

no fim era bem ruim esse Las Palmas, comparado com a comida acreana e seu tempero nordestino. um arroz cheio de petit-pois e pedacinhos de presunto impossíveis de catar, um frango engordurado e batata frita similar. só vi vantagem nos molhinhos que acompanhavam o frango: vinagrete de cebola roxa, chimichurri e molho vermelho de pimenta. 

pedi uma maionese pra comer com a batata, à la pulp fiction. precavida com a suposta falta de higiene boliviana, conferi a data de validade, que era 2021, e então não pude consumi-la. depois de pagar a conta avisei pra garçonete sobre a maionese e ela me disse que era só o recipiente velho. então tá, tudo certo, né?

com o calor perco a fome e só como manga, e as manguitas do quintal são uma delícia. com o calor eu passo fome mas não quero comer, é confuso e não sei como agir. talvez a falta de fome tenha a ver com a minha própria dificuldade em encontrar o meu lugar, o meu conforto. mas aos poucos encontro e amo o calor amazônico.



domingo, 6 de julho de 2025

a velha toma chá

envelheço e me recuso a comprar a ideia de que a felicidade só chega a algum modelo ideal de beleza, a quem se mantém jovem eternamente. o aprendizado tem sido, pelo contrário, o de desaprender obrigações historicamente assimiladas no afã de pertencer.

quero assumir a plenos pulmões a vida única que há aqui e expressar o que pulsa sem almejar ser aceita. como a terra, firme e inteira, assumo as cicatrizes como aquilo que me fortalece. ainda que tenha sido dor, é também cura.

não por capricho ajo a partir de uma verdade genuinamente profunda. me sinto bela: potente, real e genuína.

domingo, 29 de junho de 2025

qual a receita pra ser eu mesma?

quando pequena eu mesma decidi que precisava ser estudiosa, responsável e guardar as emoções mal-vistas. essa parece uma marca indelével, a de não agir no mundo a partir do meu desejo e da minha necessidade, mas a partir do olhar do outro.

quando íamos ao hospital a psicóloga me perguntava se estava tudo bem. na frente do meu pai, eu engolia o choro e dizia que sim, era ótima aluna e assim o veredito era de que estava tudo bem e eu nem sabia a razão do choro que queria sair. não entendo até hoje porque eu tanto precisava esconder o meu sofrimento infantil e por que ele era tão pesado. nem tenho consciência do quanto eu devia sofrer com bullying e coisas do tipo. talvez eu achasse que já dava trabalho bastante para os meus pais e não queria gerar mais problemas sendo emocionalmente fraca.

existia um movimento na vida enquanto eu crescia: tentar pertencer, ser querida e amada ao mesmo tempo em que evitava a todo custo ser rejeitada. ao menor sinal de que seria rejeitada eu me distanciava, talvez vivesse até numa eterna paranoia e medo de ser excluída e via sinal onde não tinha.

uma vez, aos 9 anos, as meninas da escola onde eu estava, que era bem legal, foram pro ponto de ônibus sem me chamar, quando costumávamos ir juntas. isso me afetou tanto e me senti retirada do grupo. pedi a minha mãe para mudar de escola e ela assim o fez. hoje me pergunto se essa questão não poderia ter sido superada, mas ela tentou o tempo todo me proteger da dor e não encará-la. eu sozinha entendi que a dor era suportável e que quanto mais eu a abraçasse, menor ela ficava.

 

segunda-feira, 12 de maio de 2025

saude em construcao
dente quebra com goiaba e ouvido precisa de antibiotico
podia ficar mal, depre, mas continuo nessa onda morna, nem feliz, nem triste.

01/07/2011

gostosa...

Ele dorme quando ela o acorda já com a mão em seu pau. Não entende como ele a faz tão molhada, ou melhor, como alguns a fazem tão excitada enquanto outros não. Precisa se dedicar à arte da sedução, coisa pra que leva jeito. 

03/11/2010

obsessão infantil

meu grande problema na infância era o nariz torto.
sonhava com meus 15 anos quando me fora prometido fazer uma plástica que o consertaria.

o combinado não se confirmou e aos 17 entendi que o nariz nunca seria como eu esperava.

os médicos tinham se dado conta que era mais fácil consertar o nariz do bebê do que deixar ele crescer tão torto como o meu.

implorava por uma caixa de bubbaloo quando tirasse o aparelho dos dentes, adorava chiclete mas era proibida. era também proibida de molhar o ouvido, nada de ondas, mergulhos ou loucuras.

é estranho que tudo isso pareça tão longe, mas de alguma forma ainda esteja tão presente: um nariz protagonista que me liderou rumo à busca de algum outro sentido.

domingo, 11 de maio de 2025

os primeiros dez dias no vipassana

0 | coma bem antes de chegar!

deixamos o Rio ao meio-dia de van em direção a Miguel Pereira. meu almoço tinha sido só um pouco de batata e peixe, precisava sair às 11h30 para o ponto de encontro e não costumo comer tão cedo.

no caminho comi um chocolate um pouco também pela aflição de estar parada dentro da van que aguardava numa ladeira em meio às obras na sinuosa serra, o que me pareceu na ocasião exatamente igual às estradas indianas e seu caos inerente. sentia como se ali estivesse entregue ao acaso causador de tragédias: o guindaste ia e vinha sem conseguir carregar as vigas de aço que supostamente deslocadas nos permitiriam seguir viagem.

afinal milagrosamente nos movemos e cheguei faminta ao centro de meditação. 

fui orientada e me instalei no mesmo quarto da Rebeca, uma pernambucana simpática com quem tinha muito em comum. conversamos pelo tempo que foi possível antes de começar o nobre silêncio. a terceira cama ficou por sorte vazia.

entreguei à gerência o meu celular, a passiflora (aqui são proibidos remédios e outras substâncias) e o que tinha de comida na minha bolsa sem pensar que ficaria com fome por horas, até servirem uma sopa rala de abóbora, pão e manteiga. juro que devorei 4 torradas no afã de resolver a questão, que voltaria todo dia. 

a partir do dia 1 já não haveria jantar, apenas um lanche que consistia em duas frutas pequenas à sua escolha: maçã ou banana não muito madura e fria, chá e leite quente. 

no refeitório, me sentava ao lado de uma canadense jovem que estava sempre me olhando ou olhando para o meu prato, talvez analisando o que minha escolha alimentar revelava ou a forma como as brasileiras comem. 

para criar algo atraente no lanche decidi colocar leite na cumbuca e misturar com banana amassada e mascavo criando uma espécie de mingau. foi uma péssima ideia pois o leite me deu gases nos primeiros dias e pra piorar entupiu o meu ouvido enquanto eu lutava para resistir à bebida quente, e única coisa que me parecia digna, diariamente às 17h. 

claro que na meditação eu lembrava que se meu ouvido continuasse assim não saberia para onde me encaminhar, na cidade caótica do Rio, e que essa seria uma questão difícil pois lá o SUS é entupido e não funciona tão bem quanto no interior.


1 | como aguentar esses pensamentos por 9 dias?

acordamos às 4h e meditamos durante a maior parte do dia, algumas vezes em grupo na sala de meditação, noutras no próprio quarto, à sua escolha. comecei a me alongar no tempo livre executando asanas simples e posturas de permanência mais longa, tipo um yin yoga, o que ou me preparava ou me aliviava das longas horas sentadas.

sentamos e levamos a atenção para baixo das narinas, só isso. impossível era manter a atenção ali por mais de dez segundos. todos os pensamentos vinham à mente sem cessar: 

"sou a pior pessoa do mundo, nada vai dar certo, eu só perco tempo, não sei para onde ir, devia ter feito isso, devia ter feito aquilo, sou uma ingrata, por que aceito migalhas e relações tóxicas? por que não sou grata? devo ter mais mágoas e rancores do que todas essas mulheres, eu guardo tudo, não sei lidar com as emoções, ai, não vou aguentar mais nove dias pensando tudo isso, que insuportável..."

em alguns momentos me sentia sem fôlego, como se uma espécie de ansiedade se apoderasse de meu corpo e não me permitisse respirar profundamente. voltava para o nariz e acontecia tudo de novo, turbilhão de pensamentos, incessantemente. uma das saídas para isso tudo era a equanimidade, relaxar no que estava acontecendo melhorava grande parte da aflição. e nisso devo concordar com o Vinicius, para quem no Vipassana falta um foco maior no cultivo da equanimidade.

esse foi o dia mais difícil da jornada, entendo agora. a perspectiva de seguir vivenciando pensamentos densos e violentos foi ruim, embora não tenha pensado em ir embora. de alguma maneira entendi que tudo era parte do processo, como o que se repete nos ensinamentos: tudo é impermanente.

neste primeiro dia me senti confortável sentando, ainda sem dores e razoavelmente animada pelo que viria, mas com medo de suportar minha própria mente por tanto tempo. percebi também que trouxera pouca roupa, nenhuma toalha de rosto ou manta extra, o que me fez falta nesses 11 dias.

uma das belezas dessa prática é a simplicidade, não é preciso nenhum ritual para sentar ou para meditar, é direto e pragmático: só observe. como sempre tive dificuldades com esse mundo místico, senti como se o caminho budista, que de alguma forma é representando aqui, fosse uma direção com a qual me sinto confortável. 

eu mesma tenho um perfil austero e sou considerada por alguns como sendo fria. sei que não sou, mas eu ajo com certa distância e objetividade, sem dar tanto espaço para arroubos emocionais e essa é a personalidade que me foi forjada.

2 | apaziguamento e prisão de ventre

percebi que meus dois desafios principais seriam resistir ao leite quente e ao sono excessivo. acordar às 4h da manhã me parecia tarefa inútil para quem já vai passar umas 10 horas por dia meditando.

em contraponto, sentia um bem estar imenso em somente sentar e fazer nada, quando era possível encontrar uma tranquilidade em meio aos pensamentos. descobrir a posição adequada levou um tempo, aumentei as almofadas, diminui de novo, olhei para alunas antigas até encontrar o formato ideal.

o café da manhã servido às 6h30 era uma delícia, mas eu não tinha fome o suficiente neste horário, nos primeiros dias. em compensação de tarde eu sonhava com o que iria comer quando saísse daqui enquanto me entupia de leite quente. misturava com chá na tentativa de aliviar a lactose, como se fosse um chai. mas aqui não havia especiarias suficientes para me ajudar a digerir esse leite de vaca.

o almoço, servido às 11h da manhã, também era uma delícia, e eu comecei comendo o máximo que conseguia para depois ir diminuindo. de fato, fica difícil meditar enchendo a barriga irracionalmente. então passei a usar somente a cumbuca e comia o que cabia nela, evitando excesso de salada crua e me focando na comida cozida, que é sempre a minha predileta. mais um caso de apego da minha pessoa, comida cozida e leite quente até aqui.

comecei a sentir dores na lombar e pedi à gerente (a única com quem podíamos falar) que me liberasse usar uma cadeira de meditação. ela não concordou e me disse que as dores eram parte do processo, que se não houvesse uma condição que me recomendasse a cadeira eu deveria evitar. dessa forma, fui ativando o mula e udhyana bandha na intenção de garantir o conforto da lombar, mas aos poucos percebi que uma super ativação também gerava dor, a solução era o caminho do meio, nem tão descontraída nem tão ativada na região pélvica e abdominal.

os pensamentos aos poucos foram se apaziguando, já não parecia tão desesperador estar no mundo e ser eu mesma. esses primeiros dias foram os mais difíceis, corpo e mente se adaptando a uma inédita rotina. tive prisão de ventre e imaginei que fosse o leite, mas não disse nada.

evitava olhar diretamente para as outras mulheres, mantendo o foco no chão ou nos objetos, mas às vezes escapava uma comunicação visual.

3 | linhaça, ameixa e funcho

eu persistia, mas falhava em acordar às 4h, pois a meditação da noite era intensa e eu demorava a pegar no sono, agitada e com fome.

a técnica inicial de observar apenas a região abaixo da narina é uma preparação para o que eles chamam de vipassana, ensinado no dia 4. ainda que haja polêmicas em relação ao termo, que aqui é tido como uma técnica, mas para os budistas é um estado de visão clara da realidade. e de fato, não é possível garantir que alguém chegue a esse estado a não ser por esforço próprio.

talvez a falta de exercícios e o consumo de leite juntos tenham gerado muitos gases e dificuldade para evacuar. me sentia ressecada por dentro. no fim desse dia falei com a gerente sobre a minha condição e ela se prontificou a deixar de molho um pote com linhaça, ameixa e funcho.

já estava bem acostumada com os trajetos quarto - banheiro - sala de meditação - refeitório. minha vida toda se resumia a esse ritual diário de deslocamento indo de um para outro e de outro para um. durante esses primeiros dias algumas mulheres desistiram, eu contei três faltantes. interessante perceber como cada pessoa está numa fase da vida ou reage de uma maneira diferente ao encontro consigo mesma.

como em muitos momentos da vida tinha escutado sobre o quanto o curso do vipassana era difícil, isso acabou me ajudando. ao invés de me apavorar, eu achei mais suave e tranquilo do que o esperado, surtiu o efeito contrário. como o último ano foi um período de inúmeras dificuldades para mim, sentir que estava preparada física e emocionalmente para vivenciar este processo foi uma vitória.


4 | dia de vipassana


perceber que a prática de yoga consciente, que vinha aprofundando desde a pandemia, me preparou despretensiosamente para estar bem sentada e perceber o corpo com facilidade, sua superfície e sua densidade, foi maravilhoso. não que eu me apegasse a este fato (tudo bem, talvez um pouquinho sim), mas eu sempre fui tão austera e exigente comigo mesma que de repente receber um retorno assim, tipo: "você não precisa sofrer tanto, você consegue tudo isso com facilidade", foi um deleite.

neste dia, aprendemos a técnica de vipassana, que consiste em passar a atenção por todo o corpo, repetidamente, percebendo a sensação em cada um dos recantos de baixo para cima e de cima para baixo. depois de 3 dias de preparação e a mente completamente focada e sem distrações, esta mudança de técnica teve um efeito arrebatador.

todo o meu corpo pulsava e parecia estar eletrizado, sentia raios por toda a extensão da pele, no rosto, braços e mais ainda nas mãos, o que já me ocorre com frequência ao praticar yoga. outra coisa que senti desde o início foi aquela dor na garganta de quem quer chorar, como se ela estivesse sempre ali, mas eu só agora pudesse notá-la: emoções guardadas que de repente puderam se fazer sentir.

fiquei tão envolvida nesse fluxo de sensações que o resultado foi estar agitada e não conseguir dormir diante do efeito potente das sensações físicas e da impressão de que queria convidar todo o mundo para vir experienciar tal feito.

saí da sala com o corpo ainda pulsando e tomei um banho quente, mas a sensações intensas persistiam. passei a tomar um banho antes de me deitar porque achava que as sensações eliminavam toxinas, que lavava com água.

o mundo interior revela que não há separação entre mente corpo e emoção, essa é uma só substância misturada e da qual geralmente percebemos só a superfície. aqui temos a oportunidade de mergulhar em sua profundidade.

dia 5 |  maravilhamento: videogame e super poderes

sentia como se uma rotina se tivesse delineando no decurso desse tempo: 

acordo entre 4h e 6h, faço a higiene matinal, medito ou durmo, tomo banho e sigo para o café da manhã, encho a garrafa de água quente e preparo a tintura chinesa, descanso ou faço asanas e sigo para a sessão de meditação, o sino toca, tomo água e vou ao banheiro, volto para a sala de meditação e medito até que sinta algum desconforto maior, como dor no joelho, sigo para o quarto e faço asanas que acomodam, toca o sino do almoço e vou para o refeitório, encho a garrafa e preparo a tintura, escovo os dentes e descanso, toca o sino e vou para a sala de meditação em grupo, os professores chamam nome por nome e perguntam sobre a sua prática, sigo meditando, toca o sino, levanto, vou ao banheiro e bebo água, volto para a sala e sigo meditando até que haja algum incômodo maior, vou para o quarto e me alongo, toca o sino e vou para o lanche, encho a garrafa de agua para a tintura, descanso e volto para a sala de meditação, após uma hora toca o sino e posso ir ao banheiro e me alongar por uns minutos, toca o sino e volto para a sala onde escutamos a palestra do criador da metodologia, Goenka. após a palestra, a meditação final do dia, que acaba às 21h e abre a possibilidade de fazer perguntas para o professor. volto e tomo um banho pois sinto que sai muita toxina do corpo. durmo entre 22h e 23h.

a partir da mudança de técnica passei a vivenciar intensas vibrações pelo corpo, além, de dores principalmente nas costas. dores que eram uma mistura de sensações físicas e emocionais, mas que causavam incômodo como qualquer dor a que nos submetamos.

sentia as costas arderem em chamas e me supreendia pela quantidade de raiva guardada. o que acreditava ser fogo se relacionava à raiva, afinal. noutros momentos uma bola pulsava nas costas e ia mudando de lugar. fora isso, raios era o que mais sentia, por todo o corpo. às vezes até parecia que meu rosto todo era tomado por raios tão pequenos como teias de aranha, que vibravam na superfície da pele intensamente. percebia também espaços internos, como o sistema digestivo a funcionar de maneira bastante presente.

em alguns momentos as sensações eram tão intensas que me imaginava em um jogo de videogame como a heroína cheia de eletricidade. brincadeiras à parte, buscava cultivar uma atitude equânime para lidar com as sensações sem sofrer ou me sentir poderosa.


dia 6 | funciona para enxaqueca?

pedi uma consulta com o professor principalmente para dizer que estava ficando agitada com sensações tão intensas. ele não me deu nenhuma resposta, pelo contrário, fui eu mesma que supus que estava me movendo muito rápido e que talvez fosse bom ir mais devagar para acalmar a mente.

também perguntei se essa prática regular poderia curar enxaqueca, como narra o Goenka. para não se comprometer, e reforçar que a prática vale por ela mesma e não para alcançar alguma finalidade, ele me disse que poderia ajudar ou não, nesse caso eu deveria tomar uma medicação.

o fato é que tive enxaqueca logo nesse dia de tarde e cheguei a ficar deitada por um tempo, até decidir ir meditar sem muita esperança, pois a dor em geral só passa no dia seguinte. retomei a meditação em grupo e em algum momento a dor cessou. obviamente que o ambiente controlado e livre do excesso de informações e atividade da vida real me ajudou, mas fiquei impressionada com o efeito da prática para o corpo-mente.


dia 7 | passou até que rápido, mas tive que desentupir o ouvido

do dia 1 em diante eu sempre olhava pra frente com a sensação de que havia uma eternidade pela frente, mas quanto mais perto do fim chegava, mais rápido passava o tempo. talvez porque eu fosse me habituando e gostando do processo?

meu ouvido ficou péssimo, mas o centro dispunha de inúmeros medicamentos e pude lavá-lo com água oxigenada e aplicar uma bolsa de água quente, o que foi aliviando o muco.


8 | cirurgia espiritual: saindo das entranhas

com os dias de prática, continuava sentido vibrações intensas e dor na garganta. essa sensação foi subindo, chorei enquanto as emoções e acontecimentos surgiam acompanhando o processo que unia diversas dimensões do meu ser.

aconteceu que em um certo momento essa vontade de chorar foi descendo até as vísceras e de lá subiram dois fios que saíram pela minha garganta, como algo real mesmo, eu sentia dois fios subindo e saindo pela boca. eu dei a isso o nome de cirurgia espiritual espontânea, algo que vai acontecendo fora do meu controle.

corpo-mente e emoções se movem quando pousamos a consciência ali, e é isso. não há expectativa nem o que é bom ou ruim, as coisas apenas são. e quanto menos importância nos damos, mais bem estar é sentido. quanto menos ligamos para as dores e os incômodos menos eles importam.

uma analogia que criei para este processo foi a do livro em 3D, aquele que olhamos de perto e de mais longe, focando o olhar, até conseguir destacar uma figura antes não vista. assim me parece ser a meditação: focamos e desfocamos até que estamos mergulhadas em um universo interno e as dores da pele para fora importam pouco.


9 | leveza, flutuação e bem-estar: não deveria me apegar


durante a prática, em alguns momentos me sentia flutuando como se voasse, em outros momentos percebia um fluxo tão leve e sutil pelo corpo que era difícil não se apegar a essa sensação de maravilhamento.

tracei muitos paralelos entre o ensinamento budista, o yoga e a bioenergética: mente e corpo em integração, o corpo tensiona e solta, o corpo guarda, depois alivia. a consciência no corpo direciona a um bem estar maior e maior. a cada dia estabelecia novas conexões e queria dissertar, contar para todo o mundo. mas depois eu entendi que tudo isso tinha sido o meu processo. e cada um tem o seu.

cheguei a pensar que poderia seguir essa rotina por muito tempo, sem problemas. o lugar era agradável, a comida era ótima e o silêncio cada vez mais apreciado.


10 | cultivo de amor a todos os seres, metta

quanto mais se passavam os dias, mais sensível e silenciosa eu me tornava. era bonito observar o céu, as flores, os ruídos... cada pequena coisa se tornava atraente, como se houvesse um efeito de cogumelo.

neste dia, houve uma palestra sobre enviar metta a todos os seres, parte dessa postura compassiva. achei interessante, mas nada de novo. percebi que não me emocionei muitas vezes. foram poucos os momentos de choro nesses dez dias, constato.


11 | ah, o silêncio!


o fim do nobre silêncio foi difícil: o silêncio não nos exaure, ele nutre. talvez encerrar o ciclo e sair dali tenha sido o trecho mais difícil: voltar aos ruídos da mente e da vida lá fora.

especial ter vivido este processo que antes parecia tão doloroso. não que não tenha sido, mas é como se a dor fosse também prazer. tudo se mistura quando retiro o foco daquilo que dói ou que é prazeroso. 

a verdade é que a vivência potente do retiro não se repete em casa, onde a prática da meditação fica muito mais monótona e difícil no dia a dia. mas ainda sinto seus benefícios, dias mais noutros menos.

sábado, 7 de maio de 2022

O agro* não é pop e seu dano vai muito além do veneno

A cidade de Itaituba fica na beira leste do rio Tapajós, no estado do Pará, e sua arrecadação vem principalmente do garimpo ilegal e dos portos que escoam os subprodutos do agronegócio em direção a Manaus, em balsas pelo rio.

Do lado oeste, em Mirituba, o intenso tráfego de carretas vindas do centro-oeste por uma Transamazônica já esburacada significa perigo para as populações locais. Como os/as motoristas ganham por produção, muitas vezes não se dão ao trabalho de zelar pela vida das populações nas beiras da rodovia.

Os grandes silos na beira do Tapajós estocam farelo de soja e de milho além de outros produtos a serem exportados, como o que chamam de mistura do petróleo, que se tornará combustível. Pode-se sentir o fedor da soja que cai dos caminhões e se acumula nas laterais das estradas.

Do lado leste, em Itaituba, o foco é o garimpo. Autodenominada de "cidade pepita", celebra descarada e institucionalmente uma prática feita em sua maioria de maneira ilegal, que polui os rios e invade territórios indígenas e florestas nacionais.

A verdade é que a porteira foi aberta não só para o boi ocupar a Amazônia e o Cerrado, mas para a grilagem com diversos fins, a extração ilegal de madeira e castanha, a pesca e a caça ilegais, a construção de hidrelétricas, o garimpo e a mineração predatória, além do agronegócio.

As chamadas Terras Indígenas (TIs) vão sendo espremidas por empreendimentos que crescem exponencialmente. Muitos de nós não notamos a gravidade da situação por vivermos tão longe de onde ela se passa.

Pude testemunhar a rotina na aldeia Sawre Muybu, que depende da água do rio para banhar, pescar e lavar roupas e da floresta para se alimentar e se conectar com uma mata que em sua cultura significa não só as árvores, mas os animais e as populações convivendo em harmonia.

Para os Munduruku a caça e a pesca são feitas a rigor pela necessidade: o espírito da floresta pode ficar bravo caso a caçada seja feita em excesso.

Mas os empreendimentos do homem branco não têm nenhum conhecimento da cultura indígena local, destruindo locais sagrados e triturando resquícios de uma antiga civilização como se isso fosse o progresso.

Os Munduruku tiveram uma cachoeira de seu território destruída pelo canteiro de obras da hidrelétrica São Luís. Segundo a cosmologia Munduruku, essa cachoeira seria um local sagrado, onde se reuniam as almas desencarnadas do povo.

Segundo o cacique Juárez, elas agora vagam sem lugar e os pajés se preocupam com a raiva e a tristeza que pesam sobre seus ancestrais.

As urnas de barro, peças arqueológicas encontradas pela obra, foram umas levadas para um museu e outras destruídas. Os Munduruku conseguiram resgatar algumas delas mas ainda seguem em busca do restante.

A saúde na aldeia, assim como para todos os povos originários do país, está sucateada mais do que nunca nos últimos anos. Não há estrutura nem material adequado para a equipe trabalhar.

A escola de ensino médio local recebe o professor mas o Estado não provê merenda nem transporte para os jovens que vêm das aldeias vizinhas para estudar.

Até para a internet a aldeia precisa se mobilizar para arcar com os R$1.300 mensais cobrados por uma fraca conexão via satélite. Sem contar o esforço anual de autodemarcar o território já que a Funai deixou de oferecer a proteção adequada nos últimos anos.

Seja os Munduruku do Tapajós ou os Kiriri do sul de Minas, todos os povos indígenas merecem acesso à saúde e educação de qualidade, além do devido apoio para manter seu território e o bem estar de sua comunidade.

E só com um esforço coletivo poderemos fundar um outro modelo de desenvolvimento, que implique em valorizar saberes ancestrais de modo a restituir o que temos sistematicamente destruído.

* o agro serve de metáfora para tantos empreendimentos cruéis que tomam nosso país.




domingo, 30 de agosto de 2020

Muitos mundos, um só planeta



Há dois dias vi um longa do Denys Arcand disponível no Sesc em Casa, o Reino da beleza.

Aos poucos fui percebendo que o filme tratava sobre um dos reinos que existe aqui na Terra, o da classe rica que tem o privilégio de escolher o que faz e como faz, vai e vem a seu bel prazer. Ao retratar esta classe o autor se vale, ironicamente, sobre a velha máxima de que riqueza não traz felicidade.

De toda forma, sendo eu brasileira de classe média, – aquela velha média desprovida de bens – não pude deixar de me surpreender com a quantidade de atividades de lazer realizadas pelos ricos personagens no Canadá de Arcand. Pesca esportiva, esqui, golfe, cartas, futebol, tênis, tantas práticas que me soaram inumeráveis. Fiquei pensando sobre a desigualdade existente entre as culturas abastadas e as carentes, e o quão injusto se conforma nosso planeta para os seres que o habitam nessa "chamada" civilização.

No dia seguinte, por ocasião da abertura da mostra de cinema árabe, assisti ao documentário Gaza, que conta o dia a dia nessa faixa de terra de 40 quilômetros por onze onde vivem dois milhões de pessoas. Aí o bicho pegou. Como podemos co-habitar o mesmo planeta quando nossas conjunturas se diferem de maneira tão brutal? Alguns vivem literalmente presos em seus territórios minúsculos enquanto outros podem queimar combustível fóssil à vontade e são bem-vindos onde quer que decidam ir.

A pandemia só escancara que viver para uns pode facilmente ser uma delícia enquanto pra outros é uma dor com a qual se resignam, a fim de buscar alguma fresta de alegria e conforto. Que haja a possibilidade de outra civilização, que não aceite a dor e a indignidade humana e tenha nisso seu mote principal.


sexta-feira, 15 de maio de 2020

sentimentos da quarentena


hoje o Vini acordou tão cedo...

ghee
bolo de cenoura
chapati maravilhoso

fiz yoga do Rojo, tou fazendo dia sim, dia não
no outro gravo uma aula como posso

comecei um estudo lendo o tijolo do Eliade
mergulhos no Ser, buscando a capacidade de abstração

sol, lavar roupa, ler, live da Teresa Cristina, merda do governo, soluço, respiro

as pérolas da quarentena são a família Rojo, a Teresa Cristina e o Vidal

já são dois meses assim, de medo do caos social e descoberta de um breve samadhi que me veio

já não sofro tanto

me distanciei desse mim que me colocou pra baixo a vida toda, deixei ele pra lá, tou bem melhor

preciso mais provar nada pra ninguém, nem agradar, nem ser correta, nem produtiva

preciso mais analisar nada
respirar e sentir, sem analisar

fluir, deixar fluir, finalmente, aos 36 anos. demorou, né?

fiquei muito tempo grudada nos erros do passado, no medo do futuro, grudada nesse mim tacanho, mesquinho e chato

ufaaaaaaaaaaaaaaaaaa

Yoga, Sāṅkhya e o perspectivismo ameríndio

Nesta quarentena resolvi ler aquele tijolo do Mircea Eliade.
Ao me deparar com a afirmação de que as doutrinas tradicionais indianas postulam que toda a matéria tenha uma só origem (prakrti) mas que o espírito (purusa) seria múltiplo, me lembrei logo do olhar indígena difundido por Viveiros de Castro, o perspectivismo ameríndio, um olhar que reúne todos os seres como humanos.

Talvez eu esteja viajando na #quarentena, mas transcrevo trechos que para mim reforçam o paralelo explicitado acima.
Aqui a assertiva de Eliade quanto às idiossincrasias do Sāṅkhya e Yoga, que os diferem do Vedanta: "O paradoxo é evidente: esta doutrina reduz a infinita variedade de fenômenos a um só princípio: a matéria (prakrti). Faz derivar de uma só raiz o universo físico, a vida e a consciência, e, no entanto, postula a pluralidade dos espíritos, ainda que por sua natureza estes sejam essencialmente idênticos. Ela une assim o que parecia tão diferente – o físico, o vital e o mental – e isola aquilo que, sobretudo na Índia, parece tão único e universal: o espírito." (Eliade)

Em seguida, pode-se trocar a palavra humanidade por espírito, e encontrar aí similaridades com a antiga tradição Sāṅkhya. "As concepções ameríndias que sustentam o conceito de perspectivismo apontam, então, para a irredutibilidade dos seus contextos a uma distinção ontológica entre natureza e cultura. (...) Em outros termos, entre os ameríndios a natureza não existe em si mesma como uma esfera “objetiva”, e sim como efeito de um ponto de vista. (...) A unidade da alma e a multiplicidade dos corpos para as quais apontam essas ontologias levariam não ao multiculturalismo moderno-ocidental, mas a um multinaturalismo ameríndio, em que a cultura é o fundo comum de uma multiplicidade de naturezas que se desdobram dos corpos. Assim, a condição compartilhada por humanos e animais não é a animalidade (como para a ciência moderna, segundo a qual os humanos pertencem ao reino animal), mas a humanidade." (Lucas Maciel)

Este breve lampejo bem que poderia gerar um estudo sobre paralelos e paradoxos entre eles.

#sankhya #yoga #vedanta #lifeofyoga #vidadeyoga




quinta-feira, 12 de março de 2020

Aprendizados da Mãe Índia

Em nossa estadia na Índia encontrei algo muito forte que desconhecia em mim: a devoção. Entendi que a entrega a essa força superior e sutil pode não ser explicada racionalmente, mas é profundamente sentida pelo coração.

Durante o retiro de Natal do Sivananda Ashram, do qual tivemos a honra de participar, muito se falou sobre o ensinamento do Vedanta, que compreende que todos somos um: “Tudo isto é verdadeiramente Brahman (realidade (Sat), consciência (Cit) e beatitude (Ānanda)." Nas palestras inspiradoras dos swamis, eles relembravam o quão próxima está a palavra de Cristo daquela dos santos hindus. E nós vimos como Cristo é abraçado por uma tradição que integra os mais variados mestres e valida diversas experiências no caminho da iluminação.



                                        Altar da Divine Life Society (acima) e um templo de rua em Goa (abaixo)

Fui então buscar O Sermão da Montanha segundo o Vedanta, comentado por Swami Prabhavananda, com trechos que revelam sua profundidade. “No Evangelho segundo São Lucas, lemos: “O reino de Deus não tem aparência ostensiva; nem se poderá dizer: ei-lo aqui ou ei-lo ali! Porque o reino de Deus está dentro de vós.” Numa vida de Yoga é exatamente o que buscamos, conectar-nos com nossa essência serena e plena, que nos define. Como o lembrete do apóstolo Paulo aos Coríntios: “Ignorais acaso que sois o templo de Deus, e que o Espírito de Deus habita em vós?“

                                         Swami Yogaswarupanandaji, presidente da Divine Life Society

E no hinduismo é o véu de Maya, da ilusão, o que nos afasta de enxergar a realidade como ela é, é como se a nossa luz fosse encoberta pelas trevas, e tivesse então que ser re-descoberta, apesar de ter estado sempre dentro de nós, brilhando. E o sermão da montanha prossegue: “E a luz brilhou nas trevas, e as trevas não a compreenderam”. A luz de Deus brilha, mas o véu de nossa ignorância esconde essa luz. Esta ignorância é uma experiência direta e imediata. Só pode ser removida por outra experiência direta e imediata – a realização de Deus. A diferença entre a ignorância e a realização de Deus, segundo Buda, é como a que existe entre o sono e o despertar”.



Harih Om. Tat Sat.

#vedanta #cristo #vidadeyoga #autoconhecimento #yogamg #sivananda #divinelifesociety #yoga #yogaemcaldas #caldasmg #pocosdecaldas #iluminacao #despertardaconsciência

segunda-feira, 21 de outubro de 2019

Eu mesma



Lila, lindo nome do qual já desgostei

Almendra, da vó Laura dos confins de Portugal (outros o veem espanhol)
Praça, da vó Talitha e de um povo mouro quiçá rebatizado
Carvalho, não uso e já nem me lembro, família de homens que me des-representa
Sou das avós, das mães, das matriarcas e de seu sábio legado
Lana escolheu meu nome; Gustavo queria Rosaura
Lila é passatempo divino, brincadeira de Krsna
Exibe abertamente meu aprendizado: a leveza de voltar à infância
Olhar o mundo com espanto e redescobri-lo em sua beleza
Foi uma intuição de minha mãe que descortinou o dharma de minha vida
Tirar o peso de cima e acreditar num presente que já não é passado
Florescendo lila

terça-feira, 18 de junho de 2019

A esfinge em mim




o boi estava no brejo, mas havia sinais de que sairia.
a águia ansiosa, bem que tentava meditar, mas era tanta a missão que cumpria.
e ele, o leão, no fundo tinha aquele ranço de ser bonzinho – de nada negativo se achava no direito.

a flor desabrochava, tímida e descontraída, dona de paradoxos. com as marcas e padrões que pareciam lhe seguir, ela de vez em quando dava um olé e vencia, noutras vezes era tomada e repetia a mesma trilha, mesma ladainha de pessoinha pequena, apertada, feinha.

consciente de sua relativa grandeza, nem podia facilmente expressá-la, não havia quem lhe desse permissão. ela mesma é que tinha que conquistar, fazer-se centro de seu mundo sem medo do egoísmo, do convencimento de se achar importante demais.

passo a passo, se regalava a siesta, a preguiça, a gula e a rede.
se dava um banho sulfuroso e almejava-se completa não importa os que falam, os que julgam.

queria ser amada apesar disso, dela mesma, desse jeito: confusa e desabrochando de boniteza.

e a serpente se eleva, devagarinho.