quinta-feira, 11 de maio de 2017

maio de 2017

que país é este, gente? acabei de ver um video do Moro dedicado a sua imensa audiência de fãs, pedindo para não irem a Curitiba no dia 10 a fim de evitar confronto... o que é isso, parte do BBB Brasil? tou quase crente que haja mesmo uma conspiração dessa direita reaça (executivo, legislativo e judiciário, infelizmente) com a mídia canalha.
o fato é: como podemos seguir naturalizando tamanha desigualdade, criminalizando movimentos sociais como o MST, que almejam um pedaço de terra e vida digna para cada brasileira e brasileiro, ao mesmo tempo em que batemos palma pra tantos ricos ilicitamente? agimos como se "self made man" fosse coisa de gente boazinha, que pelo suor do rosto acumula capital. mas acumular capital é quase sempre sinônimo de exploração de seres mal pagos, pra não dizer "escravizados" e "famintos", em um sistema do qual não enxergam saída.
quando dois pesos e duas medidas julgam Rafael Braga e Eike ou Thor Batista (milionário não fica preso, pobre e preto sim, ainda que sem causa), e também Lula e qq helicóptero de cocaína ou apartamento em Paris (engravatado pseudointelectual merece ser rico, ex-operário não) nota-se que tem algo de muito errado no Brasil.
o mínimo que se espera é que engravatados e engomadinhos não valham mais do que um operário ou agricultor. aliás, é exatamente o contrário na maior parte das vezes. o coração do camponês é imenso, e é com ele que precisamos aprender a cultivar afeto e simplicidade.


segunda-feira, 30 de janeiro de 2017

A teia da vida, ou conexão Grécia-China-Américas

Um é tudo, tudo é um 
(Heráclito de Éfeso)

O caminho gera o um 
O um gera o dois
O dois gera o três
O três gera os dez mil seres 
(tao te ching)




O cientista Alexander von Humboldt, maior entusiasta da natureza do século XIX, foi um dos primeiros a defender a ideia de "teia da vida". Enquanto a ciência ainda lidava com seres superiores e inferiores, Humboldt dava importância à mínima expressão de vida como parte de um sistema orgânico maior e vivo, conectado globalmente em cada folha, inseto ou musgo. O naturalista é o personagem do livro "A invenção da natureza", que narra suas aventuras pelo globo enquanto retrata questões históricas e expõe as limitações e crenças científicas da época, e como elas vão sendo contrapostas pelas descobertas de Humboldt. Algumas das pérolas de Alexander são bastante atuais, como "o único capital que aumenta com o tempo consiste na produção agrícola." Contrário às lógicas instituídas pelo sistema colonialista do começo do século XIX, e desde sempre avesso à escravidão, o pesquisador questionava para que seriam necessários o ouro e os metais se bastava "arar ligeiramente para produzir abundantes colheitas?". Salientava ainda que era necessário um sistema de agricultura de subsistência, baseado em culturas comestíveis para consumo próprio e variedade de alimentos como banana, quinoa, milho e batatas. Ele foi o primeiro a associar o colonialismo à devastação do meio ambiente e também o efeito da seca e da mudança climática à ação do homem sobre a natureza. Mais de dois séculos depois de suas pesquisas, continuamos plantando para obter lucro e tornando o planeta cada dia mais árido. E só para dar mais um detalhe singular desse cientista, ele acreditava que os povos indígenas eram deveras conhecedores da natureza, e seus ensinamentos muito valiosos.


terça-feira, 29 de novembro de 2016

Sobre os Diálogos internacionais sobre os impactos dos agrotóxicos



À beira da Via Dutra, em Guararema, próximo à capital paulista, fica a Escola Nacional Florestan Fernandes. Construída inteiramente por voluntários, ali funciona um centro de formação idealizado pelo Movimento dos trabalhadores rurais sem terra. Inaugurada em 2005 e majoritariamente financiada pelo livro e CD Terra, de José Saramago, Chico Buarque e Sebastião Salgado, a instituição homenageia o educador Florestan Fernandes, defensor de uma educação pública de qualidade para todos.

O local abriga três pequenos prédios de alojamento, refeitório e diversas salas de aula e auditórios, cada um dedicado a nomes emblemáticos da luta por justiça social, como Rosa Luxemburgo e Patativa do Assaré. Há também a casa de artes Frida Kahlo, de bambu e pau a pique, duas hortas, galinheiro e uma creche para os filhos de alunos e professores. Tudo feito com tijolo ecológico confeccionado localmente, sem uso de fogo. Ali os cursos de formação reúnem gente vinda de todo o mundo, para resumir países cujo nome nunca havia ouvido antes, como uma ilha minúscula perto de Madagascar, que, como nós, também sofre com o uso de venenos agrícolas e a consequente extinção de animais silvestres e insetos. Os diversos povos presentes na escola trazem suas cores e cantos criando uma atmosfera de magia. De manhã, acordava com cantos africanos tão lindos que pareciam uma gravação, mas improvisados ali.

Foi lá que assisti, há cerca de um mês e em meio a esse ambiente multicultural, ao encontro internacional – principalmente latino – entre pesquisadores, agricultores e movimentos sociais que lutam pela saúde no campo, organizado pela Campanha Permanente Contra os Agrotóxicos e pela Vida (www.contraosagrotoxicos.org). E uma das coisas em comum entre nós, países em desenvolvimento, é a atual e recente dominação de um sistema de produção agrícola perverso, resultado da tal revolução verde, pós segunda guerra. O leitor pode encontrar mais detalhes sobre o assunto no sítio acima.

A forma mais simples de explicitar o que acontece hoje no campo brasileiro – e, paralelamente, em cantos pobres do globo – é a captura da capacidade de governança dos estados pelo capital financeiro. E um dos sintomas são as gigantes corporações, tais como Bayer, Singenta, Monsanto, et cetera, que detêm o monopólio da comercialização de sementes modificadas (ou transgênicas) e agrotóxicos, um pacote que o agricultor é impelido a consumir até mesmo para acessar fundos de crédito, uma evidência do poder de lobby dessas empresas. Além de dominarem o chamado agronegócio (aquele de grande extensão dos grandes empresários de soja, milho, cana, etc), essas corporações também convenceram famílias que há mais de 12 mil anos cultivam alimentos sem veneno a modificar o modo de produção em nome de uma “segurança” (já que o veneno extermina insetos e plantas indesejadas) que degreda a saúde de quem trabalha no campo, e a de quem consome esses alimentos: o acúmulo de agrotóxico gera inúmeras doenças no ser humano e no meio ambiente.

Neste encontro, foram inúmeros os relatos de quem vive e de quem pesquisa a realidade agrária, numa enriquecedora troca de experiências. Lá estava a lavradora Petrona Talavera, que em 2003 perdeu um de seus filhos e teve a família toda intoxicada por agrotóxico vindo de propriedade vizinha, no interior do Paraguai. Perdeu inclusive toda a criação de peixes, teve a lavoura envenenada e ainda hoje luta por justiça.  Aqui no Brasil não é tão diferente: foram registrados 34.147 casos de intoxicação por agrotóxicos entre os anos de 2007 e 2014, segundo dados do Sinan, fora os não registrados.

Do sertão pernambucano, outra militante, Edna Santos, me contou que o veneno nas mangas e uvas ali é pesado, pois as frutas têm que ser “perfeitas” – e são muitos também os casos de câncer na região, que é uma das mais importantes produtoras das variedades frutíferas citadas para todo o país. O advogado Preston Peck, dos Estados Unidos, falou sobre o extermínio em massa das abelhas em função do uso de agrotóxicos, insetos essenciais para o equilíbrio do meio ambiente e para a produção agrícola. Os pesquisadores argentinos relataram que os efeitos danosos na saúde de seu povo, depois da tomada do agronegócio no território, são catastróficos. O mesmo acontece no Brasil, onde hoje, por exemplo, o pequeno agricultor não pode produzir a sua própria semente de milho sem ameaças, a legislação busca impedir que produtores agrícolas com conhecimentos tradicionais, muitas vezes em vias de extinção, coloquem em prática seus saberes, pois devem obrigatoriamente comprar a semente da indústria. O que os pesquisadores argumentavam em coro nas discussões é que já não podemos deixar de olhar para a saúde pública e socioambiental em nome de interesses financeiros; precisamos, mais do que nunca, mudar de rumo.

sexta-feira, 3 de junho de 2016

Carta resposta a Augusto de Carvalho

Carta resposta a Augusto de Carvalho
De uma cidadã brasileira, sua sobrinha-neta, Lila Almendra

Caro Sr. Augusto,

Li sua carta, na última edição do Ponte, endereçada à nossa presidente Dilma. Apesar de concordarmos em relação ao risco de se juntar aos porcos e acabar comendo farelo – vide o infame Michel Temer –, discordo bastante de sua visão aí do céu, e decidi, portanto, me pronunciar. Importante ressaltar que faço isso não por plena consciência da verdade, coisa sabidamente impossível, mas por ser testemunha de fenômenos sociais que farão felizes ao Brizola e a outros tantos lutadores aí do céu. Sou, talvez como representante de uma geração, simpatizante de projetos alternativos de governo – e ser de esquerda, como Deleuze afirmou, implica desejar mudanças para além do meu bairro, ansiar por um mundo melhor além das fronteiras de meu estado.
E foi isso, para a felicidade do Brizola, que minimamente se conquistou nesses últimos 13 anos do PT no Brasil. Negros e pobres com mais acesso à universidade comemoram as primeiras gerações diplomadas de famílias marginalizadas desde a escravidão; via internet pode-se ler artigos sobre o resultado positivo dos negros que entraram nas universidades pelas cotas –  não querem perder essa chance de ouro, pois gostam de trabalhar e ter a dignidade de cidadãos dessa suposta democracia racial. O bolsa família e o empoderamento de mulheres no sertão, incluídas numa sociedade que antes as negligenciava, mas que agora lança o olhar sobre seus filhos, suas necessidades. Programas sociais que parecem óbvios em democracias maduras, mas que no Brasil só conseguiram se implementar no século XXI, e frente a muito estardalhaço. São mudanças reais e um inédito olhar para os mais fracos, uma vontade real de enfrentar a desigualdade e trazer para o jogo milhões de brasileiros à margem. E não para por aí, setores da cultura festejaram a distribuição de políticas regionais, que possibilitaram a artistas populares fora do circuito Rio-São Paulo se engajarem na agenda cultural brasileira, que lhes dá importância e reconhecimento, como uma amiga artista me contou. Sinto te dizer que essas conquistas socioculturais estão indo por água abaixo com o governo provisório armado em formato de circo no congresso.
Obviamente que o governo de Dilma errou nas parcerias e nas prioridades ambientais e econômicas, e em muitos outros pontos, como na manutenção da dívida de uma reforma agrária decente. Mas, e talvez infelizmente, até o momento este foi e é o melhor governo de 2016. Não há prerrogativa que justifique um governo interino hipócrita, integrado por incontáveis coronéis, a lançar canetadas a torto e a direito desfazendo realizações diversas em âmbitos social, cultural e ambiental. Se o senhor acompanhasse o que acontece em Brasília no momento veria que o pulso firme de Dilma em não se corromper foi uma das causas de sua retirada do poder sem razão.
Essa senhora, que já lutou na clandestinidade pela liberdade e soberania da nação brasileira, arriscando a própria vida, segue em luta por um Brasil mais igualitário, mesmo em meio às víboras que se reproduzem no poder. Apesar de não concordar inteiramente com seu governo, repito, me sinto impelida a defendê-la tamanha a covardia com que vem sendo atacada, a primeira mulher presidente do Brasil – que com garra e coragem enfrentou a máfia da elite política e econômica do país, somada à mídia burguesa, que, com raras exceções, ataca a presidente sem lhe dar chance. Em um país dominado por uma cadeia de televisão tão poderosa (tanto que chega a ser vergonhoso contar isso a estrangeiros), Dilma seguiu imponente. Só isso já me dá ânimo para estar do lado dela, e não do lado deles, que com seus interesses escusos não me representam. Augusto, quem está do lado do governo provisório é um ator chamado Alexandre Frota (que o senhor felizmente ignora), em nome de uma educação sabe-se lá qual... o ministro das relações estrangeiras é Serra, cuja ânsia neoliberal tercerizante dá arrepios. O mais recente dos atos federais foi a anulação do veto anterior de Dilma ao aumento de mais de 40% para o judiciário, oficializada por Temer há poucos dias; num país de milhões de desempregados, é de fato desastroso que irresponsáveis tomem o poder. Ou seja, se estava mal com ela, note que vai bem pior sem ela. Torço para que o senhor consiga outras fontes aí do céu, além da mídia brasileira, e, te peço, ore por nós.


PS: uma publicação, em tempos de crise é a Revista Apuro, feita pela juventude que ainda anseia por alguma coisa diferente.

quinta-feira, 19 de maio de 2016

dicas caseiras para pessoal amigx – a pedidos

depois dessa onda natureba cosmética tipo caseira em que me meti, alguns andam me pedindo dicas. resolvi expô-las aqui para facilitar pra geral, e se souberem alguma coisa mais, bora compartilhar, galera!

desodorante natural, de dois tipos: 

1) leite de magnésia, água filtrada/mineral e óleo essencial à sua escolha (os mais usados são sálvia, lavanda, rosas, sândalo e laranja. Mas fiz com gerânio e ficou muito bom. Colocar em potinho de spray para facilitar a utilização, funciona mas é mais leve que o de baixo.

2) misture óleo de coco/coco babaçu (ou qq outro) com bastante bicarbonato num vidro e pronto (pode-se colocar óleo essencial tb, à escolha) e é só usar, fica mais pastoso, durinho, bom de pegar com a mão. a receita completa leva manteiga de karité e maizena, mas fiz o básico e funciona SUPER bem.

máscara para rosto caseira:

2 colheres de sopa de argila verde ou branca + 2 de água mineral/sem cloro + 2 gotas de oleo essencial de melaleuca/tea tree. aplicar sobre o rosto limpo, de preferência recém lavado com água morna. deixar uns 10 a 15 minutos ou até começar a secar, remover enxaguando. atenção: não deixe secar completamente pois as impurezas retornam à pele. aplique um óleo (como o de semente de uva) ou hidratante facial que costuma usar para finalizar. o resultado é incrível!

hidratante/óleo para o rosto:

óleo vegetal de semente de uva ou rosa mosqueta com gotas de óleo essencial de palmarosa, gerânio e olíbano, ou outros a pesquisar. o óleo vegetal de buriti tb é incrível para o rosto!

shampoo para cabelo seco:

bata no liquidificador leite de coco (feito em casa) com a mucilagem da babosa e congele em cubos de gelo ou picolé. vá retirando um dia antes de usar para a geladeira, e lave o cabelo com a mistura. hidrata e limpa bem.

hidratação para cabelo seco:

bata a mucilagem da babosa com uma colher de sopa de óleo (coco babaçu e argan foram os que usei), aplique no cabelo e deixe agir por um tempo. depois disso é só lavar com água, fica bem oleoso, escove bem para tirar os resíduos, no outro dia fica ótimo.

leave in para cabelo seco:

óleo vegetal de abacate e de pracaxi são os que uso atualmente, na hora de dormir ou depois do banho, e também o de amêndoa doce.

shampoo para cabelo oleoso:

dissolva uma colher de sopa de bicarbonato em um copo de água e lave a cabeça com a mistura. depois faça o mesmo com uma colher de vinagre em copo d'agua para finalizar (como condicionador).

amaciante e sabão em pó:

para amaciar as roupas de modo ecológico, colocar uma colher de vinagre com algumas gotas do óleo essencial de sua escolha no local apropriado da máquina de lavar.

para fazer um sabão ecológico rale o sabão de coco mais puro que encontrar no mercado (o que tiver menos ingredientes) e misture com bicarbonato de sódio.

pasta de dente ainda não fiz uma que goste, mas pode-se usar só o pó de joá (tem na loja herborista, na siqueira campos); e sabonete tem os do site fefa pimenta e outros locais, super naturais! gosto dos de azeite, mas sai bem caro.

na internet vão achar essas receitas mais detalhadas, mas fica a dica.
beijocas!







quarta-feira, 30 de março de 2016

"queremos mentiras novas" pixação em muro universitário



Heidegger e sua ode ao simples e ao inescutável. 
Que ao menos possamos ouvir mentiras novas.

O CAMINHO DO CAMPO

Por Martin Heidegger

Do portão do Jardim do Castelo estende-se até as planícies úmidas do Ehnried. Sobre o muro, as velhas tílias do Jardim acompanham-no com o olhar, estenda ele, pelo tempo da Páscoa, seu claro traço entre as sementeiras que nascem e as campinas que despertam, ou desapareça, pelo Natal, atrás da primeira colina, sob turbilhões de neve. Próximo da cruz do campo, dobra em busca da floresta. Sauda, de passagem, à sua orla, o alto carvalho que abriga um banco esquadrado na madeira crua.
Nele repousava, às vezes, este ou aquele texto dos grandes pensadores, que um jovem desajeitado procurava decifrar. Quando os enigmas se acotovelavam e nenhuma saída se anunciava, o caminho do campo oferecia boa ajuda: silenciosamente acompanha nossos passos pela sinuosa vereda, através da amplidão da terra agreste.
O pensamento sempre de novo às voltas com os mesmos textos ou com seus próprios problemas, retorna à vereda que o caminho estira através da campina. Sob os pés, ele permanece tão próximo daquele que pensa quanto do camponês que de madrugada caminha para a ceifa.
Mais freqüente com o correr dos anos, o carvalho à beira do caminho leva a lembrança aos jogos da infência e às primeiras escolhas. Quando, às vezes, no coração da floresta tombava um carvalho sob os golpes do machado, meu pai logo partia, atravessando a mataria e as clareiras ensolaradas, à procura do estéreo de madeira destinado à sua oficina. Era lá que trabalhava solícito e concentrado, os intervalos de sua ocupação junto ao relógio do campanário e aos sinos, que, uns e outros, mantêm relação própria com o tempo e a temporalidade.
Os meninos, porém, recortavam seus navios na casca do carvalho. Equipados de banco para o remador e de timão, flutuavam os barcos no Mettenbach ou no lago da escola. Nesses folguedos, as grandes travessias atingiam facilmente seu termo e facilmente recobravam o porto. A dimensão de seu sonho era protegida por um halo apenas discernível, pairando sobre todas as coisas. O espaço aberto era-lhe limitado pelos olhos e pelas mãos da mãe. Tudo se passava como se sua discreta solicitude velasse sobre todos os seres. Essas travessias de brinquedo nada podiam saber das expedições em cujo curso todas as margens ficam para trás. Entrementes, a consistência e o odor do carvalho começavam a falar, já perceptivelmente, da lentidão e da constância com que a árvore cresce. O carvalho mesmo assegurava que só semelhante crescer pode fundar o que dura e frutifica; que crescer significa: abrir-se à amplidão dos céus, mas também deitar raízes na obscuridade da terra; que tudo que é verdadeiro e autêntico somente chega à maturidade se o homem for simultaneamente as duas coisas: disponível ao apelo do mais alto céu e abrigado pela proteção da terra que oculta e produz.
Isto o carvalho repete sempre ao caminho do campo, que diante dele corre seguro de seu destino. O caminho recolhe aquilo que tem seu ser em torno dele; e dá a cada um dos que o percorrem aquilo que é seu. Os mesmos campos, as mesmas encostas da colina escoltam o caminho em cada estação, próximos dele com proximidade sempre nova. Quer a cordilheira dos Alpes acima das florestas se esbata no crepúsculo da tarde, quer de onde o caminho ondeia entre os outeiros a cotovia da manhã se lance no céu de verão, que o vento leste sopre a tempestade do lado em que jaz a aldeia natal da mãe, quer o lenhador carregue, ao cair da noite, seu feixe de gravetos para a lareira, quer o carro da colheita se arraste em direção ao celeiro oscilando pelos sulcos do caminho, quer apanhem as crianças as primeiras primaveras na ourela do prado, quer passeie a neblina ao longo do dia sua sombria massa sobre o vale, sempre e de todos os lados fala, em torno do caminho do campo, o apelo do Mesmo.
O Simples guarda o enigma do que permanece e do que é grande. Visita os homens inesperadamente, mas carece de longo tempo para crescer e amadurecer. O dom que dispensa está escondido na inaparência do que é sempre o Mesmo. As coisas que amadurescem e se demoram em torno do caminho, em sua amplitude e em sua plenitude dão o mundo. Como diz o velho mestre Eckhart, junto a quem aprendemos a ler e a viver, é naquilo que sua linguagem não diz que Deus é verdadeiramente Deus.
Todavia, o apelo do caminho do campo fala apenas enquanto homens nascidos no ar que os cerca forem capazes de ouví-lo. São servos de sua origem, não escravos do artifício. Em vão o homem através de planejamentos procura instaurar uma ordenação no globo terrestre, se não for disponível ao apelo do caminho do campo. O perigo ameaça, que o homem de hoje não possa ouvir sua linguagem. Em seu ouvido retumba o fragor das máquinas, que chega a tomar pela voz de Deus. Assim o homem se dispersa e se torna errante. Aos desatentos o Simples parece uniforme. A uniformidade entedia. Os entendiados só vêem monotonia a seu redor. O Simples desvaneceu-se. Sua força silenciosa esgotou-se.
O número dos que ainda conhecem o Simples como um bem que conquistaram, diminui, não há dúvida, rapidamente. Esses poucos, porém, serão, em toda a parte, os que permanecem. Graças ao tranqüilo poder do caminho do campo, poderão sobreviver um dia às forças gigantescas da energia atômica, que o cálculo e a sutileza do homem engendraram para com ela entravar sua própria obra.
O apelo do caminho do campo desperta um sentido que ama o espaço livre e que, em momento oportuno, transfigura a própria aflição na serenidade derradeira. Esta opõe-se à desordem do trabalho pelo trabalho: procurado apenas por si, o trabalho promove aquilo que nadifica.
Do caminho do campo ergue-se, no ar variável com as estações, uma serenidade que sabe, e cuja face parece muitas vezes melancólica. Esta gaia ciência é uma sagesa sutil [1]. Ninguém a obtém sem que já a possua. Os que a têm, receberam-na do caminho do campo. Em sua senda cruzam-se a tormenta do inverno e o dia da messe, a irrupção turbulenta da primavera e o ocaso tranqüilo do outono; a alegria da juventude e a sabedoria da maturidade nela surpreendem-se mutuamente. Tudo porém se insere placidamente numa única harmonia, cujo eco o caminho do campo em seu silêncio leva de um para outro lado.
A serenidade que sabe é uma porta abrindo para o eterno. Seus batentes giram nos gonzos que um hábil ferreiro forjou um dia com os enigmas da existência.
Das baixas planícies do Ehnried, o caminho retorna ao Jardim do Castelo. Galgando a última colina, sua estreita faixa transpõe uma depressão e chega às muralhas da cidade. Uma vaga luminosidade desce das estrelas e se espraia sobre as coisas. Atrás do Castelo alteia-se a torre da Igreja de São Martinho. Vagarosamente, quase hesitantes, soam as badaladas das onze horas, desfazendo-se no ar noturno. O velho sino, em suas cordas outrora mãos de menino se aqueciam rudemente, treme sob o martelo das horas, cuja silhueta jocosa e sombria ninguém esquece.
Após a última batida, o silêncio ainda mais se aprofunda. Estende-se até aqueles que foram sacrificados prematuramente em duas guerras mundiais. O Simples torna-se ainda mais simples. O que é sempre o Mesmo desenraiza e liberta. O apelo do caminho é agora bem claro. É a alma que fala? Fala o mundo? Ou fala Deus?
Tudo fala da renúncia que conduz ao Mesmo. A renúncia não tira. A renúncia dá. Dá a força inesgotável do Simples. O apelo faz-nos de novo habitar uma distante Origem, onde a terra natal nos é devolvida.